sexta-feira, 4 de junho de 2021

Copa América no Brasil: para além do futebol, um conflito econômico, político e sanitário.¹

Meme sobre a realização da Copa América no Brasil

Depois das desistências de Colômbia e Argentina em sediar a Copa América, a Conmebol opta por realizar o maior torneio das Américas no Brasil e é prontamente atendida por Bolsonaro a despeito de toda a situação sanitária do país diante da pandemia do novo Coronavírus.

Pela primeira vez na história da Copa das Américas, a disputa pelo título de “Campeão das Américas” aconteceria em dois países, Argentina e Colômbia. Planejada para acontecer em Junho de 2020, a competição enfrentou vários percalços antes mesmo de seu início, o maior deles, certamente, tem sido a pandemia da Covid-19. Devido a grave situação sanitária envolvendo todo o mundo, a Copa América teve que ser adiada, tendo seu calendário reajustado e início marcado para este mês, Junho de 2021, e não contará com as duas seleções convidadas,  Qatar e Austrália. A Conmebol, no entanto, não contava com a desistência dos países-sede em realizar o torneio.

Como a Colômbia deixou de ser sede da Copa América

Assim como no Brasil, a situação do povo colombiano frente ao enfrentamento da pandemia não é das melhores. O país é o terceiro da América Latina com o maior número de mortes e contágio pelo vírus. Como bem sabemos, sem política social que garanta condições de sobrevivência mínimas em uma situação de calamidade, as taxas de desigualdade social crescem vertiginosamente, e assim aconteceu no país, 15% da população colombiana vive em estado de extrema pobreza, o maior índice registrado nos últimos 10 anos.

Seguindo uma cartilha econômica muito parecida com a de Paulo Guedes, Carrasquilha, ex-ministro da economia da Colômbia, propõe uma reforma tributária que impõe aos setores médios um aumento no pagamento de juros, afim de custear as medidas sociais e pagar a dividida externa do país, e poupa os mais ricos dessa tributação.

Iván Duque, presidente colombiano, não conseguiu reverter o quadro de insatisfação popular diante da reforma tributária, não garantiu sobrevivência ao povo e nem conseguiu conter o vírus no país. Estava dado o cenário para uma das maiores revoltas no país.

Em meio a uma massiva onda de protestos, a Colômbia ainda chegou a receber jogos da Copa Libertadores da América. Nos dias 12 e 13 de maio, os jogos entre Júnior Barranquilla e River Plate e Atlético-MG e América de Cali, respectivamente, precisaram ser paralisados devido às manifestações que ocorriam do lado de fora dos estádios e os jogadores passarem mal por inalar gás lacrimogêneo. A solução encontrada pela Conmebol foi transferir os demais jogos que aconteceriam no país e apostar num apaziguamento da situação para manter os jogos da Copa América. Sim, mesmo diante do ocorrido na partida da Libertadores, a Confederação Sul – americana não havia cogitado ainda não ter mais a Colômbia como país-sede.

A situação política no país não melhorou e, mesmo vivendo a terceira onda da pandemia, a pior de todas até agora, o povo colombiano não saiu das ruas e seguiu com os protestos pela sobrevivência! No dia 20 de maio, a Colômbia abre mão de sediar a disputa.

Argentina também está fora dos planos da Conmebol

Diante da desistência por parte da Colômbia em sediar a disputa continental, caberia à Argentina receber as 10 seleções que disputarão o torneio. No entanto, com o aumento do número de casos e mortes no país, o governo argentino decidiu abandonar a posição de país-sede. O ministro do interior da Argentina, Wado de Pedro, chegou a dizer que seria inviável organizar a disputa no país, principalmente em Mendoza, Córdoba, Buenos Aires, Tucumán e Santa Fé.

É importante ressaltar que a AFA, federação argentina de futebol, suspendeu a realização de torneios nacionais, o que demonstra coerência do país ao desistir de sediar a disputa continental.

A Argentina vive o seu pior momento na pandemia, o país ocupa o segundo lugar da América do Sul em números de contaminação e morte, ficando atrás do Brasil. Os números da pandemia no território argentino, segundo dados da OMS, são de  3.732.263 de casos confirmados, sendo quase 30 mil registrados só nas últimas 24 horas,  e 77.108 mortes por COVID-19, 415 nas últimas 24 horas[2], em decorrência dos números recordes, o país vive em regime de lockdown.

Com o fechamento dos postos de trabalho, os argentinos também estão tendo que enfrentar problemas como o desemprego e o governo de Alberto Fernández enfrenta uma onda, ainda que leve, de protestos quase que cotidianamente. O ex-ministro da saúde do país, no entanto, aponta para o fato de que a população argentina não questiona a gravidade da situação, não um movimento negacionista parecido com o que ocorre no Brasil, nas palavras de Adolfo Rubinstein.

Também na Argentina, assim como na Colômbia, no Brasil e em diversos países no globo, a relação de contaminação por Covid-19 e a situação de vulnerabilidade da população é sentida.

O governo argentino ainda tem muitas dificuldades para encarar. O país agora que vive a segunda onda de contaminação e, caso não avance no processo de imunização, pode ainda contar com muitas vidas perdidas e assistir a um colapso do sistema de saúde, humanitário e financeiro.

A Copa América chega ao Brasil

Meme satirizando a realização da Copa América no Brasil quando o país se aproxima de uma terceira de contaminação pelo Coronavírus

Após a desistência dos dois países-sede a poucas semanas do evento, a Confederação Sul-americana precisou procurar um novo lugar para a realização da competição das seleções sul-americanas. A entidade chegou a receber propostas oficiais dos governos equatoriano e venezuelano, mas recusou. Vale destacar que os dois países apresentam um dos menores números pandêmicos na América do Sul.

Diante do grande impasse, a Conmebol procurou a CBF – Confederação Brasileira de Futebol – para tratar sobre o tema com o governo brasileiro, o que indica um grave problema de entendimento da pandemia por parte daquela entidade.

O Brasil é terceiro país do mundo com mais casos de contágio e mortes por Covid-19, estando atrás apenas dos Estados Unidos, que já vacinou toda sua população e não tem mais registros de contaminação e mortes nas últimas 24 horas, e da Índia. Em se tratando da América do Sul, o território brasileiro é o primeiro lugar de casos totais de Covid-19, vive a iminência de uma terceira onda de contaminação e é considerado o novo epicentro da pandemia.

A decisão da Conmebol em manter o torneio já é irresponsável pelos índices pandêmicos que a América do Sul apresenta e é irracional ao escolher o Brasil como nova sede para a disputa da taça. A justificativa dada pela entidade para a escolha foi que o país já tem os equipamentos esportivos prontos e adequados a disputas internacionais pelo padrão FIFA.

Bolsonaro, ao contrário do tratamento que deu aos e-mails da Pfizer ofertando vacinas contra o novo Coronavírus, respondeu prontamente à solicitação da Conmebol e assegurou, na última segunda-feira, 31/05, a realização da copa das Américas em solo brasileiro nos meses de Junho e Julho. A notícia, evidentemente, pegou vários países de surpresa e gerou indignação em uma parcela da sociedade. Jornalistas esportistas manifestaram-se de forma contundente diante da resposta afirmativa do planalto central.

Logo após a repercussão negativa nas redes sociais, o Ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, deu uma declaração afirmando que não havia nada concreto ainda, tinha-se apenas uma reunião entre o Governo Federal e a CBF, mas que “não houve batida de martelo”. Ainda na declaração da noite de segunda-feira, Ramos apontou para o fato de que os campeonatos nacionais e internacionais seguem ocorrendo normalmente no país. E que, caso o evento da Conmebol seja realizado aqui, todos os membros das 10 comitivas deverão ser vacinados. Essa até poderia ser considerada uma medida responsável e coerente, se no Brasil tivesse vacina para todos, se não estivéssemos vacinando, ainda, os grupos prioritários. A indicação do ministro é irreal diante do atual cenário de vacinação brasileiro e sul-americano.

As competições futebolísticas, a pandemia e o governo brasileiro

Em plena pandemia, Bolsonaro à Silvio Santos um selo em homenagem aos 90 anos do dono do SBT
Seguindo uma onda de suspensão de jogos e competições esportistas que aconteciam em todo o mundo, a CBF decidiu suspender a realização das competições nacionais sob sua responsabilidade em março do ano passado. Outros países fizeram o mesmo e confederações internacionais também adiaram suas competições, foi nesse período que o Comitê Olímpico anunciou o adiamento para julho deste ano a realização das Olimpíadas 2020.

No que diz respeito aos campeonatos organizados pela CBF, tivemos a suspensão do Brasileirão, Copa do Brasil e campeonatos estaduais, mas a medida não durou muito tempo. Em Junho do ano passado, com o país vivendo o pico de sua primeira onda, os campeonatos estaduais recomeçaram. A pressão se deu início no Rio de Janeiro, com o Flamengo encabeçando a lista de times que queriam o retorno dos jogos, mesmo que sem torcida.

A retomada dos estaduais mostrou a face mais desigual do esporte mais popular no Brasil. Times como o Flamengo, com um alto investimento de patrocinadores e alta cota de televisão, conseguiu estabelecer um protocolo de testagem para seus jogadores de fazer inveja ao governo federal, que não se empenhou em nenhum momento da atual crise sanitária para fazer testagem em massa. No entanto, essa não é a realidade de todos os times brasileiros. Times menores tiveram que cancelar contratos de jogadores porque não tinham condições de manter a folha de pagamento. Durante a disputa da série B do Campeonato Brasileiro, o Guarani teve 17 jogadores que testaram positivo para Covid-19 e teve que pedir adiamento da partida contra o Cuiabá porque não tinha elenco disponível para a partida. A CBF, no entanto, considerou satisfatório os resultados fora de campo com uma taxa de contaminação de 2,2% dos jogadores e comissão técnica dos clubes e decidiu por manter as disputas por títulos nacionais em 2021.

É fato que a retomada do futebol atende a uma demanda financeira dos clubes. Sem partida, os patrocinadores não têm divulgação de suas marcas e os clubes não recebem pelo direto de transmissão dos jogos, embora não tenham perdido contratos.

No que diz respeito às disputas continentais, a Conmebol retomou os jogos da Libertadores seis meses após sua parada, mesmo com nove clubes que estavam na disputa do torneio tendo jogadores testados para Covid-19.

Em meio a todo esse caos, Bolsonaro se divertia, e fazia seus aliados rirem, com declarações negacionistas sobre a pandemia, chamando de “gripezinha” e, mais recentemente, imitando pessoas com falta de ar, um dos sintomas mais graves da Covid-19. O presidente do país fazia toda essa chacota com a população brasileira enquanto trocava de camisas de times com as quais aparecia em suas lives para disseminar o uso do Kit Covid.

Bolsonaro não demonstrou, em mais de um ano de crise sanitária responsabilidade no combate ao novo Coronavírus. Fez o que pode para atrasar o processo de vacinação no Brasil. Rejeitou 70 milhões de doses da Pfizer, cortou gastos e proibiu contratação de vacinas do Butantan. Por que então nos causa surpresa que ele aceite os jogos da Copa América? E mais, por que nos surpreende que a Conmebol, que também já deu provas de que não está dando tanta importância à pandemia tenha escolhido o Brasil como sede da competição?

A verdade é que não nos surpreende se analisarmos todos os fatos envolvidos nesse acordo de morte estabelecido por Bolsonaro e Conmebol.

A Conmebol já estima um prejuízo de US$ 30 milhões com a realização do torneio sem público e sem a participação do Catar  e da Austrália, a entidade não pensaria em cancelar a disputa em nome da saúde dos atletas e da comissão técnica e encontrou no Brasil o lugar adequado para propor uma final no Maracanã, maior estádio nacional, com a presença de torcida. Se já não fosse ruim o bastante, Bolsonaro indica o estádio de Manaus como possível local de jogos. Manaus perdeu vidas por falta de oxigênio para pacientes com Covid-19. Manaus não conseguia respirar! E para seguir com sua política de pão e circo, Bolsonaro oferece a Arena da Amazônia como palco para uma catástrofe anunciada.


Bolsonaro também não deixaria de favorecer ao Sistema Brasileiro de Televisão – SBT – que ganhou o direito de transmissão dos jogos da Copa América desbancando a concorrente Rede Globo, até então dona exclusiva da transmissão da maioria dos campeonatos nacionais e continentais de futebol. A relação de Bolsonaro com o canal de televisão não é recente, mesmo antes de ser eleito, era possível ver os maiores nomes da empresa fazendo campanha para o então Deputado Federal. Depois de eleito, foi ao SBT que Bolsonaro concedeu a primeira entrevista. Sem falar na jornalista Rachel Sheherazade, que foi demitida após  exigência de Luciano Hang, dono da Havan, por ter posicionamentos políticos contrários a Bolsonaro.

Não podemos esquecer também que Bolsonaro aceita sediar a Copa América dois dias depois de atos massivos contra seu governo e exigindo vacina para todos! A resposta que Bolsonaro deu ao povo foi de pouca importância às nossas demandas. Com esse aceite, o presidente deixa claro seu papel na presidência, fazer o que a ditadura não fez, matar mais de 100 milhões de brasileiras e brasileiros. Bolsonaro assina sua confissão de genocida!

 



[1] Este artigo foi escrito no dia 01/06/2021

[2] Ao dados foram retirados do site https://covid19.who.int/table no dia 01/06/2021


quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

BBB 2020 e a quarentena

 Fazia tempo que eu não andava por aqui, pra retomar as atividades, vou aproveitar que o 21° BBB tá quase começando e postar um texto que escrevi ano passado sobre o sucesso de audiência do BBB 20.


Sobre BBB e a quarentena


É interessante observar o movimento das redes sociais nestes dias de isolamento social, o que temos feito para passar o tempo. Estudar, ler, assistir a filmes e séries e ao BBB.


Não vou aqui fazer a discussão sobre alienação, não alienação, manipulação, não manipulação, acho que, de alguma forma, temos o direito de decidir sobre como vamos desligar o nosso cérebro diante de tanto caos social, e não me refiro só aos dias que estamos passando, mas a ordem social mesmo. Mas um fenômeno me chama a atenção: Por que essa edição é tão comentada?


A resposta inicial a essa pergunta pode ser simples e óbvia, "Porque o povo é alienado e manipulado pela Globo", mas toda resposta rápida não é suficiente. Então, pensemos um pouco mais sobre essa edição... temos um BBB formado por ilustres "desconhecidos", ponho entre aspas pelo fato de eles serem desconhecidos pra mim, que, segundo já me disseram, não sei usar as redes sociais 🤷🏽‍♀️. 


Temos no BBB 20 cantores, atores, digitais influencers, namoradas de famosos, esportistas e algumas pessoas comuns. Os seguidores e as seguidoras desse pessoal, os agentes desses artistas, têm bombardeado o Instagram com o cotidiano daquela que já foi, e voltou a ser, a casa mais vigiada do país. Não precisamos mais assistir à Globo para sabermos quem são as pessoas, quais os PT's dados em festa, quem pegou quem, basta clicar na lupinha do Insta que aparece lá, juro pra vocês como demorei muito a ver isso 😅, as imagens que só ficariam disponíveis pelo pay per view, de graça, nas redes sociais. Não sintonizei na Globo, mas consumi seu produto! Jogada fantástica do Boninho! 👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾


Outro ponto que merece ser destacado: As mulheres que estão na casa! Influencers ou não, elas deram voz a um movimento crescente aqui do lado de fora, o Feminismo, e foram, pela primeira vez, destaque em discussões de gênero - não, não estou dizendo aqui que nunca houve esse tipo de debate no programa, claro que teve!, mas essas mulheres têm alguns milhares de seguidores, alguns igualmente famosos, os quais ajudaram a ecoar suas falas dentro do Casa. Tivemos uma edição em que, para além das artimanhas e combinações de votos já tão batidos, a disputa era entre um campo "progressista" e um campo escroto, aquele formado, majoritariamente por mulheres, este composto por, praticamente, todos os homens da casa. Nessa divisão, obviamente, tivemos aqueles e aquelas que ficaram nem lá, nem cá, como na vida real, afinal é um "show de realidade".


É interessante observar pessoas antes completamente alheias ao programa acompanharem a edição deste ano, e sabendo os nomes de cada participante e comentando o programa, porque o mais engraçado é a existência de comentaristas de BBB, eis-me aqui, Brasil! 😅💁🏾‍♀️


Diante de todo esse cenário, não me surpreende essa ser uma edição que quebra vários recordes de votação, mas aí, um acontecimento potencializa o alcance o BBB, a chegada do Corona vírus ao Brasil!


Como medida de contenção da infecção, somos impelidos ao confinamento em nossas casas, sem festa, sem superprodução, sem quarto do líder. Parte da população brasileira, sem TV por assinatura, mas com algum acesso à internet, se rende ao passatempo do momento, assistir ao Big Brother e comprar as brigas como suas, escolher sua/seu favorita(o) e o odiado.


Este BBB é diferente sendo igual!


P.s. Falar de BBB e não falar de paredão é "não estar jogando", então, como não quero ser eliminada, ou cancelada, por não jogar, digo logo que sou #ForaPrior pq ele representa o típico boy lixo da classe média que faz piada machista, é grosseiro e se esconde por trás de "sou sincero!". Manu não é minha favorita dessa edição, mas não tem condições de deixar Prior mais uma semana na casa!


P.s. 2. Quando mencionei que as mulheres fizeram discussões sobre feminismo não estou tentando travar a discussão sobre qual feminismo elas representam.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

O teatro mágico é o teatro do nosso interior

Capa do DVD - O Teatro Mágico Entrada para Raros
Misturando variadas representações e formas de fazer artístico, o grupo, ou trupe, como eles referem - se a si mesmos, O Teatro Mágico vem, desde 2003, inovando a arte musical, não só no aspecto visual, figurino e montagem do palco, ambos remetem ao espaço circense. Fazendo um mix de poesias e canções, conseguem encantar e prender a atenção de quem os escuta. 


O primeiro CD, Entrada para Raros, traz, de forma mais marcante, a principal característica da trupe, o jogo com as palavras na busca da construção do sentido. Dessa forma, temos, por exemplo a história do mar que se apaixona por uma menina e a brincadeira com a sonoridade de "Ana e o Mar" e "Mar e Ana", ou ainda a letra de Pratododia - pra todo dia, prato do dia. Ainda ouvimos uma sorte que vira ou que virá num realejo. No entanto, o que mais chama a atenção, a minha pelo menos, é a faixa de abertura, tanto do CD quanto do DVD, Sintaxe à vontade, onde a trupe brinca com as classes gramaticais e funções sintáticas afim de construir um conceito de indivíduo, não um conceito fechado e acabado, mas um livre, dinâmico e mutável.
O Teatro Mágico - Segundo Ato
Já no "segundo ato", o OTM mostra um pouco mais a visão crítica que tem do mundo, sai do espaço individuo, criado no primeiro trabalho, e entra na interação homem - sociedade. O jogo com as palavras ainda é marca registrada da trupe de Fernando Anitelli, compositor das músicas do grupo.

O segundo CD traz a trupe ao mundo real, cheio de cidadãos de papelão, um mundo onde as mídias, como um todo, "controlam" e ao mesmo tempo jogam quantidades abusivas de informações de uma vida que passa à velocidade da luz, interessante como isso tudo passou pela minha cabeça de maneira tão veloz que senti - me cansada. Além de duas temáticas que me são muito caras, a mercantilização do trabalho humano, seja ele braçal, como em "O Mérito e o Monstro", ou intelectual/ artístico, como em "Pena", onde o título da canção, graças a polissemia da palavra, nos permite chegar a duas possíveis e complementares interpretações, "pena" pode indicar dó, e trabalho ao mesmo tempo, "tudo junto agora", a segunda temática é a alienação do indivíduo, e aí podemos citar as várias formas de uma pessoa ser alienada, quanto ao meio, quanto ao outro e quanto a si próprio, de novo o melhor exemplo é "O Mérito e o Monstro", além de "Cidadão de Papelão".


OTM - A Sociedade do Espetáculo
Por fim, A Sociedade do Espetáculo, terceiro trabalho do grupo. A marca desse trabalho é a junção do aspecto lúdico encontrado no primeiro disco e a criticidade do segundo.


Característica deste trabalho é a relação homem - sociedade - mídias, não como "coisas" distintas, mas de forma interacionista, o indivíduo modifica sua sociedade através das mídias sociais, Amanhecerá é uma ótima ilustração para isso.


Os temas mais "românticos", estão de volta nesse álbum, canções como "Nosso Pequeno Castelo", "Você me Bagunça", trazem a questão do sentimento e da "confusão", comoção, estado de graça causadas por ele.


O jogo com as palavras é marca registrada das letras de Anitelli, nos três CD's temos a presença constante desse tipo de artifício literário, o que levaria a qualquer crítico literário traçar um paralelo estilístico com o Barroco, enquadrando dentro do estilo cultista. Contudo, acho difícil tentar classificar O Teatro Mágico dentro de um período Literário, mesmo que leve - se em conta unicamente as letras ou as poesias, enquadrá - los dentro de um estilo musical, ou algum tipo de atividade circense, pois a trupe é tudo isso junto, música, poesia, circo, "até porque tem horas que a gente se pergunta porque é que não se junta tudo numa coisa só"? A construção final das músicas, como já foi dito várias vezes, é dada através da brincadeira com as palavras, mas essa brincadeira é permitida pela proposta do grupo, a ideia de ser leve, lúdica e, principalmente, envolvente.


As canções não são feitas meramente para se ouvir, são feitas para que se pense sobre o que a letra quer dizer, e o OTM faz isso, traz esse trabalho tão satisfatório, acompanhar letra e melodia, a fim de entender os vários significados das palavras. Porque essa é a magia que a trupe encerra, não há uma interpretação final, há uma construção, uma criação, uma constante mudança de homem - sociedade - sociedade - indivíduo.


para os curiosos







quarta-feira, 4 de abril de 2012

E sobre as revoluções no "mundo" árabe

Amanhã... Será? 
O Teatro Mágico


Se aliança dissipar..
E sentença for só desamor!
A tormenta aumentará!
Quando uma comunidade viva!
Insurrece o valor da Paz,
Endurecendo ternamente!

Todo biit, byte, e tera..
Será força bruta a navegar,
Será nossa herança em terra!

Amanhecerá!
De novo em nós!
Amanhã, será?

Amanhecerá!
De novo em nós!
Amanhã, será?

O "post" é voz que vos libertará.
Descendentes tantos insurgirão.
A arma, o réu, o véu que cairá.
Cravos e Tulipas bombardeiam,
Um jardim novo se levantará.
O Jasmim urge do solo sem medo.

O sol reclama no Oriente.
Brada a lua que ilumina.
Rebelando orações e mentes.

Amanhecerá!
De novo em nós!
Amanhã, será?

Letras Canções Poemas


Foge um pouco às postagens que tenho feito, mas sei lá, já que a arte serve à revolução e esta é protagonizada por indivíduos, então vamos nos revolucionar!


Ele é meu silêncio
Tudo que quero gritar
E não posso
Tudo que quero mostrar
E não devo

Dele, eu sou a voz
Sou eu quem ele decifra
Letras Canções e Poemas
É a mim que ele mostra
É a nós que ele exalta

Ele é meu mundo
E eu não posso viver
Ele é tudo que não posso ter

Eu sou um traço mal traçado
O pedaço deslocado
A parte que faltava do todo

Nós somos a combinação perfeita
Ele com sua vida
Eu sem a minha
Ele com a voz
Eu com o silêncio
Ele canta          
Eu escuto
Eu vou
Ele me deixa.
Dizer mais o quê??

Vale a pena chamar a atenção para um detalhe importante, é uma criança NEGRA, pois são os negros quem mais sofrem com a falta de verbas suficientes para os serviços básicos.


segunda-feira, 25 de abril de 2011

Um pouco de música para alegrar a vida, ou não...

PenaO Teatro Mágico
O poeta pena
Quando cai o pano e o pano cai
Um sorriso por ingresso
Falta assunto, falta acesso
Talento traduzido em cédula
E a cédula tronco é cédula mãe solteira

O poeta pena
Quando cai o pano e o pano cai
Acordes em oferta
Cordel em promoção
A prosa presa em papel de bala
Música rara em liquidação

E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
Luz acesa
Lá se dorme um sol em mi menor

Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior

O palhaço pena
Quando cai o pano e o pano cai
A porcentagem e o verso
Rifa, tarifa e refrão
Talento provado em papel moeda
Poesia metamorfoseada em cifrão

O palhaço pena
Quando cai o pano e o pano cai
Meu museu em obras
Obras em leilão
Atalhos retalhos e sobras
A matemática da arte em papel de pão

E quando o nó cegar
Deixa desatar em nós
Solta a prosa presa
Luz acesa
Já se abre um sol em mi maior

Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior

Sempre que escuto essa música d' O Teatro Mágico não tenho como não pensar na atual Música Popular Brasileira (MPB). O tempo em que Bossa Nova, Rock, ou sua versão pop, Caetano, Gil, Chico Buarque, Mª Betânia e cia era, ou pelo menos deveria ser, chamado de MPB acabou, hoje popular mesmo são esses forros cada vez mais machistas e homofóbicos, swigueira, que põe homens e mulheres pra rebolar numa clara dança de acasalamento, os sertanejos, que agora são UNIVERSITÁRIOS, para não serem tachados de "brega". Nada contra os ritmos ou contra quem os escuta. Minha raiva é que apenas esses ritmos nos são apresentados como forma de distração. Enquanto vários outros artistas/grupos estão alocados em um patamar intitulado "underground' por não terem espaço na grande mídia burguesa, ou não terem contratos assinados com as grandes empresas da música, as gravadoras, que por sua vez lucram absurdos com a venda de cd's e, por isso são radicalmente contra os downloads de músicas e fazem campanhas caríssimas contra a pirataria. Não há motivos para que nos enganemos, a preocupação desses senhores não está na qualidade do som, ou nas noites, dias, meses, semanas ou anos, perdidos para a gravação de um "cd de altíssima qualidade". Na verdade, o medo deles é de que suas contas bancárias diminuam a quantidade de dígitos.É graças a esse medo tamanho que as bandas populares são "forçadas" a gravarem quatro, cinco cd's por ano. E, pensado nisso, eu me pergunto: Será que há tanta criatividade para isso?" Eu mesma me respondo, óbvio que com a ajuda de algumas rádios da nossa região: "Não, não há tanta criatividade assim. Porque se houvesse as bandas de forró, por exemplo, não precisariam ficar copiando as músicas umas das outras. Ninguém pode negar esse fato... algumas músicas fica até difícil, pra não dizer impossível, saber quem gravou ou cantou primeiro.Esse é um outro argumento dos empresários: direitos autorais, se você baixa uma música a pessoa que a escreveu não ganhará nada por isso. E se uma banda famosíssima de swigueira plagia, descaradamente, uma música de uma banda de rock? O autor original da música ganhará algo? Ah, não, mas é porque de banda para banda pode, já que o lucro de alguém está sendo garantido. Então sejamos realista, são dois pesos e duas medidas... muito bom.Não estou dizendo que um compositor, cantor, guitarrista, baixista, etc., não devam ganhar por seus trabalhos, pelo contrário, devem sim, afinal eles trabalharam e tem o direito de ganhar por seu trabalho, assim como todo trabalhador. O problema é quando o trabalho vira propriedade privada de um outrem que não necessariamente foi quem realizou o trabalho de fato. O problema é quando esse trabalho é tomado como posse com o intuito de subjulgar um determinado grupo de pessoas, ou classe se você preferir; o problema é quando a arte, seja ela expressa da forma como for, é utilizada para dominar toda uma classe social, a classe trabalhadora; o problema é quando o artista começa a ser avaliado não pela qualidade de sua obra, mas pela quantidade; O PROBLEMA É QUANDO A ARTE É USADA PARA DOMINAÇÃO!!!!!!!

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

A Rede

Depois de algum tempo em off, em todos os aspectos que a vida possa nos exigir, decidi que já estava mais do que na hora de escrever algo, nem que fosse pura besteira...
Não é nenhuma novidade cinematográfica o filme A Rede Social, que tem por objetivo narrar toda a história de um dos maiores, se não o maior, sites de relacionamento da atualidade. Não vou aqui tecer críticas ao filme, até porque não o assisti e não gosto de fazer críticas lendo a dos outros, na verdade, o propósito é justamente falar sobre essa onda, essa febre das redes sociais, são tantas que às vezes você troca seu login, sua senha, pelo menos eu esqueço... ainda bem que o pioneiro, eu acho, o msn, resolve os nossos os problemas e permite que nos conectemos de uma vez... o yahoo copiou. Ops!, faz um tempo que são do mesmo dono. Aff!!!!!!
Enfim, deixemos de tanto blá, blá, blá...
Se algum dia nos fosse perguntado para que servem as redes sociais, certamente responderíamos que serve para reencontrar amigos distantes, para "conhecer" novas pessoas, ou seja, para a socialização. Mas será que há uma socialização de fato, ou é só uma escapatória, uma fuga de uma realidade e uma dinâmica de vida tão duras que não nos permitem reencontrar os velhos amigos ou fazer novas amizades?
Na verdade nos é (im) posto uma tal falta de tempo para mantermos, fazermos amizades, que é muito mais simples, mais prático e mais eficiente, essa é a ideia que nos transmitem, manter - nos conectado ao facebook, twitter, msn, ou qualquer outra rede "social", já que dessa forma podemos "conversar" com todos os nossos amigos ao mesmo tempo, agora, enquanto lemos um livro, trabalhamos e escrevemos algo, porque tudo não passa de uma otimização do tempo.
O tempo é o mestre das nossas vidas... não temos tempo de ler um bom livro, nos contentamos com os resumos, não temos tempo, às vezes nem dinheiro, de ir ao cinema ver um filme, baixamos da internet, não temos tempo pra encontrar uma grande amiga que precisa conversar de verdade, não teclar... não temos tempo para dizer "eu te amo" as pessoas realmente importante em nossas vidas porque mal a encontramos.
Não temos tempo, e essa falta de tempo é consequência do sistema no qual vivemos, é esse sistema capitalista que nos inclausura, que limita nossas relações pessoais, que nos deixa sozinhos, mas cheio de amigos que, contraditoriamente, nunca vemos e nunca vimos.
Mas o problema ainda não é só esse, ainda esbarramos na questão da acessibilidade, porque nem todos tem um pc em casa. A maioria dos jovens, filhos da classe trabalhadora, dependem de lan houses, gastam parte de seus dinheiros, que não é muito, nesses espaços para terem acesso e receberem os parabéns pelo seu aniversário que seu colega de classe deixou em sua página de recados.
Segundo a revista R, publicação da Juventude do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado - PSTU - estima - se que 78% dos jovens brasileiros tenham algum tipo de acesso à internet (...) no entanto, este acesso é bastante estratificado de acordo com a classe social e região dos jovens. A juventude é a faixa etária que mais navega em lan houses e garantir que a população tenha acesso ao mar de informações do mundo virtual significa enfrentar - se com grandes multinacionais das redes telefênicas como a Oi, aqui no Ceará, ou a Telefônica, na região Sudeste.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Sex and the City: sapatos, homens e estereótipos

O fato de um filme produzido por mulheres ter atingido o topo das bilheterias neste fim-de-semana – num momento em que a liderança feminina está sumindo de Hollywood – deveria ser motivo de celebração. Até você ver o filme.


Jen Roesch (www.socialistworker.org)




Reprodução
Cartaz original do filme

• A série de televisão Sex and the city foi, freqüentemente, descrita como um show pioneiro sobre a importância de amizades entre mulheres e aplaudida por sua discussão franca sobre a sexualidade feminina. Mas isto sempre foi um “pigmento” da imaginação pós-feminismo. Carrie, Miranda, Samantha e Charlotte são virtualmente irreconhecíveis como mulheres do mundo real, onde o resto de nós vive. Suas amizades são envolvidas de discussões sem fim sobre a procura pelo “Sr. Certo” e por pares perfeitos de sapatos de grife – tudo envolto por almoços e coquetéis agendados de acordo com horários de supostos trabalhos.

Mas ao menos na “telinha”, em digestíveis episódios de trinta minutos, o programa podia até ser interessante e ocasionalmente abordar assuntos reais. Por exemplo, a temporada que tratou da luta de Samantha contra o câncer de mama. Teve momentos genuínos e tocantes. Mas o filme volta a trabalhar temas pedantes e um insultante cociente, sem nenhuma das qualidades que tornavam a série digna de perdão.

Desde o momento inicial do filme, fica claro que pretende tratar-se totalmente do narcisismo e consumismo, já que uma montagem de uma bem vestida – e ignorantemente magra – jovem mulher aparece cruzando as telas. Carrie diz numa narrativa que todos os anos, milhares de mulheres com seus vinte e poucos anos vêm a Manhattam em busca do “2L’s: “Labels and love” (marcas e amor).

Com nossas vidas penosamente resumidas. O filme continua a nos servir duas horas (sim, duas) de estereotipos femininos. O que as mulheres querem hoje em dia? Aparentemente, elas querem sapatos de Manolo Blahnik que custam 500 dólares, coberturas, vestidos de noiva desenhados por estilistas famosos e o homem perfeito. Samantha agarra seu pedido de “independência” ao comprar um anel de 60 mil dólares para celebrar a si mesma.

O conflito central do filme são os planos de Carrie de se casar com Big. O que começa como uma decisão mútua entre adultos termina no que muitos escritores hollywoodianos chamariam de o ápice da fantasia feminina. Nós gastamos aproximadamente uma hora assistindo Carrie experimentando diversas sucessões de vestidos e estilistas e planejando uma festa com 200 pessoas da alta sociedade para celebrar o coroamento de sua conquista. Aparentemente, esse é o ápice dos sonhos de todas as quarentonas bem-sucedidas.

É claro, algo tem de destruir essa imagem tão perfeitinha. Por isso, as outras duas horas dizem respeito à separação de Carrie e Big e sua inevitável reconciliação – e sempre com “suas garotas” ao seu lado. Como precisavam de algo para preencher o tempo de desenvolvimento do filme, tiveram de usar alguns problemas de menor importância de suas amigas. Discussões sobre moda preenchem outras espaços em branco do filme.

Uma adição para que o filme mereça ser comentado é a personagem de Louise que vem de St. Louis como sua assistente pessoal encarregada de “arrumar” a vida de Carrie. Como a única personagem central negra (e de classe trabalhadora), Louise – ou o modo como é tratada no filme – é decepcionante. Louise é inteligente e charmosa, obcecada por moda, é exposta ao “grato” papel de servente numa posição desigual a qual nós deveríamos apreciar.

Para todo o desapontamento, Sex and the city é considerado o mais novo “hit” da América. E está sendo visto como um fenômeno. Assim como está gerando discussões sobre o que o filme representa, o que as mulheres querem e o que isso significa para o futuro das mulheres no cinema. É aqui que as coisas vão de irritantes e pedantes para depressivas e dignas de fúria.

Há aqueles que vêem o filme como a nova face da libertação sexual feminina. A idéia de que as vidas invejadas dessas mulheres ricas representa liberdade é um insulto para as milhões de mulheres que continuam lutando por uma medida genuína de igualdade.

Certamente uma coisa boa é o fato de as mulheres poderem falar abertamente sobre sua vida sexual na “telona” (mesmo que existam preciosos e curtos momentos disso no filme). Mas é algo que parece sem sentido justo no momento que os direitos de aborto estão sendo destruídos e mulheres continuam sendo tratadas como objetos sexuais.

E é degradante para a qualidade e para a importância da amizade feminina retratá-las em volta de sexo e moda – como se mulheres não tivessem nenhuma outra preocupação ou objetivo.

Seria interessante se o sucesso de bilheteria de Sex and the city inspirasse uma onda de filmes que realmente falassem sobre os verdadeiros problemas da vida feminina. Mas eu não apostaria nisso.

Hollywood é tanto um reflexo quanto um propagador de uma cultura que difama as mulheres. Até mesmo quando um filme como Sex and the city consegue “estourar”, é porque o filme reforça essa cultura, não a desafia.

Falar de amizades entre mulheres, mulheres solteiras entre seus trinta e quarenta anos, construindo suas próprias vidas na cidade, falar sobre verdadeiras relações e explorações sexuais seria bem-vindo para a cultura popular. Um retrato honesto desses assuntos hoje em dia seria, sem dúvida, pioneiro: mas, ao contrário disso, Sex and the city trabalha nas mesmas raízes antigas e estereótipos.

Tradução: Luis Gaspar

*publicado no site do PSTU em 16/06/2008.

Ana Branco_Antologia da poesia feminina dos PALOP

"Agora aqui..."

Agora aqui;
Longe daquela terra;
A minha terra;
Aquela que me viu nascer;
Apreendi a minha maior;
Essência.
Todos me levam e ninguém me trás.
Levam tudo sim. Carne, pele e ossos.
Até meu tutano conseguem sugar
Levam tudo sim.
O melhor que há em mim.
Trazer-me, nunca.
Senão o pior que neles há.

"Sei que aos 30..."

Sei que aos 30,
já a velhice me alcançou
e a vida me venceu.
E há muito tempo que caí de medo.
Há muito tempo que arde
na fogueira a chama da vida.
O fumo
que dela sai,
confunde-se com as nuvens no céu,
confunde-se comigo.

"Ai meu anjo..."

Ai meu Anjo e meu seguidor,
seguidor de todas as horas.
Pede ao pai.
Que pare...
Que pare com a provação
a que me submete!...
Afinal filha dele eu sou.

domingo, 5 de dezembro de 2010

Cultura e Arte Proletárias_ Leon Trotsky

Cada classe dominante cria a sua cultura e, em conseqüência, sua arte. A história conheceu as culturas escravistas da antigüidade clássica e do Oriente, a cultura feudal da Europa medieval e a cultura burguesa que hoje domina o mundo. Daí, a dedução de que o proletariado deva também criar a sua cultura e a sua arte.

A questão, contudo, está longe de ser assim tão simples quanto parece à primeira vista. A sociedade na qual os possuidores de escravos formavam a classe dirigente existiu durante muitos séculos. O mesmo ocorreu com o feudalismo. A cultura burguesa, ainda que a consideremos somente a partir da sua primeira manifestação aberta e turbulenta, isto é, a partir do Renascimento, existe há cinco séculos, mas só atingiu o seu completo florescimento no século XIX, ou, mais precisamente, na sua segunda metade. A história mostra que a formação de uma nova cultura em torno de uma classe dominante exige considerável tempo e só alcança a sua plena realização no período que precede a decadência política dessa classe.

O proletariado terá muito tempo para criar uma cultura proletária? Contrariamente ao regime dos possuidores de escravos, dos senhores feudais e dos burgueses, o proletariado considera a sua ditadura como um breve período de transição. Quando queremos denunciar as concepções muito otimistas sobre a passagem para o socialismo, destacamos que o período da revolução social, em escala mundial, não durará meses, e sim anos e dezenas de anos - dezenas de anos, mas não séculos e, ainda menos, milênios. Pode o proletariado, nesse lapso de tempo, criar uma nova cultura? Essa dúvida é legítima, porque os anos de revolução social serão anos de uma feroz luta de classes, na qual a destruição ocupará maior lugar do que a atividade construtiva. O proletariado, em todo caso, gastará a sua energia principalmente na conquista do poder, na sua manutenção, no seu fortalecimento e na sua utilização para as mais urgentes necessidades da existência e da luta posterior. Ora, durante esse período revolucionário, que encerra em limites tão estreitos a possibilidade de uma edificação cultural planificada, o proletariado atingirá o clímax de sua tensão e dará a manifestação mais completa do seu caráter de classe. E, inversamente, quanto mais o novo regime estiver protegido contra perturbações militares e políticas e quanto mais favoráveis se tornarem as condições para a criação cultural, tanto mais o proletariado se dissolverá na comunidade socialista, libertar-se-á de suas características de classe, isto é, deixará de ser proletariado. Não se trata, em outras palavras, da edificação de uma nova cultura, isto é, da edificação na mais longa escala da história, durante o período da ditadura. A edificação cultural, por outro lado, não terá precedente na história quando não mais houver necessidade da mão de ferro da ditadura. Aí, porém, não mais apresentará um caráter de classe. Pode-se concluir, portanto, que não haverá cultura proletária. E, para dizer a verdade, não existe motivo para lamentar isso. O proletariado tomou o poder precisamente para acabar com a cultura de classe e abrir o caminho a uma cultura da humanidade. Esquecemos isso, ao que parece, com muita freqüência.

As proposições confusas sobre a cultura proletária, por analogia e antítese à cultura burguesa, nutrem-se de uma identificação muito pouco crítica entre os destinos históricos do proletariado e os da burguesia. O método vulgar, puramente liberal, das analogias históricas formais nada tem em comum com o marxismo. Não há nenhuma analogia real entre o ciclo histórico da burguesia e o da classe operária.

O desenvolvimento da cultura burguesa começou vários séculos antes que a burguesia, através de uma série de revoluções, tomasse o poder do Estado. Quando apenas representava o Terceiro Estado, quase sem direitos, a burguesia já desempenhava grande papel, que crescia incessantemente em todos os domínios do desenvolvimento cultural. Pode-se observar esse fato, de modo particularmente nítido, na evolução da arquitetura. As igrejas góticas não foram construídas repentinamente, sob o impulso de inspiração religiosa. A construção da catedral de Colônia, sua arquitetura e sua escultura, resumem toda a experiência arquitetônica da humanidade, desde os tempos das cavernas, e todos os elementos dessa experiência concorrem para a elaboração de novo estilo, que exprime a cultura de sua época, isto é, em última análise, a sua estrutura social e a sua técnica. A antiga burguesia das corporações e das guildas foi a verdadeira construtora do gótico. Mas, desenvolvendo-se e reforçando-se, isto é, enriquecendo, a burguesia ultrapassou, consciente e ativamente, o gótico e começou a criar o seu próprio estilo arquitetônico, não mais para as igrejas, e sim para os seus palácios. E, apoiando-se nas conquistas do gótico, voltou-se para a Antigüidade, especialmente para a arquitetura romana e mourisca, submeteu tudo isso às condições e às necessidades da nova vida das cidades e assim criou o Renascimento (Itália, fim do primeiro quarto do século XV). Os especialistas podem enumerar - e enumeram efetivamente - os elementos que o Renascimento deve à Antigüidade e os que deve ao gótico, para ver qual deles predomina. O Renascimento, em todo caso, não começou antes que a nova classe social, já culturalmente saciada, se sentisse muito forte para sair do jugo do arco gótico, para considerar o gótico e tudo o que o precedera como simples material à sua disposição e para submeter os elementos do passado aos seus fins arquitetônicos. Isso vale, igualmente, para as outras artes, com a diferença de que, em virtude de sua maior flexibilidade, isto é, do fato de que dependem menos dos fins utilitários e dos materiais, as artes livres não revelam a dialética da dominação e da sucessão dos estilos de maneira tão convincente como o faz a arquitetura.

Do Renascimento e da Reforma, que deviam criar condições de existência intelectual e política mais favoráveis para a burguesia na sociedade feudal, à Revolução, que lhe transferiu o poder (na França), decorreram de três a quatro séculos de crescimento das suas forças materiais e intelectuais. A época da grande Revolução Francesa e das guerras que com ela nasceram rebaixou, temporariamente, o nível material da cultura. Em seguida, porém, o regime capitalista se afirmou como natural e eterno.

Assim, as características sociais da burguesia como classe possuidora e exploradora determinaram o processo fundamental de acumulação dos elementos da cultura burguesa e de sua cristalização num estilo específico. A burguesia não só se desenvolveu materialmente no seio da sociedade feudal, entrelaçando-se de várias maneiras e apossando-se das riquezas, como também colocou ao seu lado a intelligentsia, para criar pontos de apoio culturais (escolas, universidades, academias, jornais, revistas), muito tempo antes de abertamente se assenhorear do poder, à frente do Terceiro Estado. Basta lembrar que a burguesia alemã, com a sua incomparável cultura técnica, filosófica, científica e artística, deixou o poder nas mãos de uma casta feudal e burocrática até 1918 e só se decidiu, ou, mais exatamente, só se viu forçada a tomar diretamente o poder quando o esqueleto material da cultura alemã começou a despedaçar-se.

A isso se pode replicar que a arte da época dos escravos demorou milênios para a sua formação, e a arte burguesa demorou somente alguns séculos. Por que não bastariam então algumas dezenas de anos para a arte proletária? As bases técnicas da vida, no presente, não são mais as mesmas e, por conseguinte, o ritmo é, igualmente, muito diferente. Essa objeção, que, à primeira vista parece muito convincente, deixa de lado realmente o cerne da questão.

No desenvolvimento da nova sociedade chegará certamente um momento em que a Economia, a edificação cultural e a arte terão maior liberdade de movimento para avançar. Quanto ao ritmo desse movimento, agora só podemos imaginar. A sociedade futura descartar-se-á da áspera e embrutecedora preocupação do pão quotidiano. Os restaurantes coletivos prepararão, à escolha de cada um, comida boa sadia e apetitosa. As lavanderias públicas lavarão bem as roupas. Todas as crianças serão fortes, alegres, bem alimentadas e absorverão os elementos fundamentais da ciência e da arte, como a albumina, o ar e o calor do sol. A eletricidade e o rádio não usarão mais os métodos primitivos de hoje, mas sairão de fontes inesgotáveis de energia concentrada ao aperto de um botão. Não haverá bocas inúteis. O egoísmo libertado do homem - imensa força! - voltar-se-á completamente para o conhecimento, a transformação e o melhoramento do universo. A dinâmica do desenvolvimento cultural, nessa sociedade, não se poderá comparar à de nenhuma outra que se conheceu no passado. Tudo isso, no entanto, só virá depois de longo e difícil período de transição, que ainda está, quase inteiramente, diante de nós. E aqui falamos, precisamente, desse período de transição.

Mas não é dinâmica a época atual? Ela o é, e na mais alta escala. Apenas o seu dinamismo se concentra na política. A Guerra e a Revolução são dinâmicas, mas na sua maior parte em detrimento da técnica e da cultura. É verdade que a Guerra produziu longa série de invenções técnicas. A pobreza geral que ela causou, por outro lado, adiou por um longo período a aplicação prática dessas invenções, que poderiam revolucionar a vida humana. Assim ocorre com o rádio, com a aviação e com numerosas descobertas químicas. A Revolução, também, criou as premissas de uma nova sociedade. Mas o fez com os métodos da velha sociedade, com a luta de classes, a violência, a destruição e a aniquilação. Se a Revolução proletária não chegasse, a humanidade afogar-se-ia nas suas próprias contradições. A Revolução salvou a sociedade e a cultura, mas por meio da cirurgia mais cruel. Todas as forças ativas concentram-se na política, na luta revolucionária. O resto passa para segundo plano, e a Revolução esmaga, impiedosamente, tudo o que se lhe opõe. Esse processo tem, evidentemente, seus fluxos e refluxos parciais: o comunismo de guerra deu lugar à NEP que, por sua vez, passa por diversos estágios. Na sua essência, porém, a ditadura do proletariado não é a organização econômica e cultural de uma nova sociedade, e sim um sistema revolucionário e militar, que se propõe instaurá-lo. Não se deve esquecer isso. O historiador do futuro colocará, provavelmente, como o apogeu da velha sociedade o 2 de agosto de 1914, quando o poderio exacerbado da cultura burguesa mergulhou o mundo no fogo e no sangue da guerra imperialista. O 7 de novembro de 1917 marcará, provavelmente, o começo da nova história da humanidade. As etapas fundamentais do desenvolvimento da humanidade - imaginamos - assim se dividirão: a história pré-histórica do homem primitivo; a história da antigüidade, cujo desenvolvimento se apoiou na escravidão; a Idade Média, baseada na servidão; o capitalismo, com a exploração assalariada; e, enfim, a sociedade socialista, com a transição, sem dor - esperamos -- para o comunismo, no qual toda a forma de poder desaparecerá. Em todo caso, os vinte, trinta ou cinqüenta anos, que a revolução proletária mundial levará, entrarão, na história, como a transição mais penosa de um para outro sistema e, de modo algum, como a época da cultura proletária.

Atualmente, nesses anos de espera, as ilusões podem nascer a esse respeito na nossa República Soviética. Colocamos as questões culturais na ordem do dia. Projetando as nossas preocupações atuais num futuro distante, chegamos a imaginar uma cultura proletária. De fato, por mais importante e vital que seja a nossa edificação cultural, ela se coloca inteiramente sob o signo da revolução européia e mundial. Somos sempre soldados em campanha. Se temos, no momento, um dia de repouso, aproveitamos para lavar a camisa, cortar o cabelo e antes de tudo limpar e lubrificar o fuzil. Toda a nossa atividade econômica e cultural, atualmente, não passa de uma reordenação de nossos pertences, entre duas batalhas, duas campanhas. Os combates decisivos estão ainda à nossa frente e, sem dúvida, muito mais distantes. Os dias que vivemos ainda não representam a época de uma nova cultura, mas no máximo o seu limiar. Devemos, em primeiro lugar, apossar-nos, oficialmente, dos elementos mais importantes da velha cultura, a fim de podermos, ao menos, abrir caminho à construção de uma nova.

Isso se torna particularmente claro quando se considera o problema, como, aliás, se deve fazê-lo, na sua escala internacional. O proletariado era e continua a ser uma classe não-possuidora, o que lhe restringe, extremamente, a possibilidade de iniciar-se nos elementos da cultura burguesa, integrada para sempre no patrimônio da humanidade. Pode-se dizer, realmente, que, em certo sentido, o proletariado - ao menos o proletariado europeu -- teve também a sua Reforma, sobretudo na segunda metade do século XIX, quando, ainda, sem atentar diretamente contra o poder do Estado, conseguiu obter condições jurídicas mais favoráveis ao seu desenvolvimento sob o regime burguês. Mas, em primeiro lugar, para o seu período de Reforma (parlamentarismo e reformas sociais), que coincidiu, principalmente, com o tempo da II Internacional, a história concedeu à classe operária quase tantos decênios quantos séculos concedeu à burguesia. Em segundo lugar, durante esse período preparatório, o proletariado não se tornou a classe mais rica, não reuniu em suas mãos nenhum poder material. Ao contrário, do ponto de vista social e cultural, ele cada vez ficou mais deserdado. A burguesia chegou ao poder completamente equipada com a cultura de sua época. O proletariado só chega ao poder completamente equipado com a necessidade aguda de conquistar a cultura. A sua primeira tarefa, após apossar-se do poder, consiste em dominar o aparelho de cultura - indústrias, escolas, editoras, imprensa, teatro, etc. - e abrir o seu próprio caminho.

A nossa tarefa, na Rússia, complica-se pela pobreza de toda a nossa tradição de cultura e pela destruição material, como conseqüência dos acontecimentos dos últimos dez anos. Após a conquista do poder e quase seis anos de luta pela sua manutenção e seu fortalecimento, o proletariado russo é obrigado a empregar todas as suas foiças para criar as mais elementares condições materiais de existência e iniciar-se, literalmente, no ABC da cultura. Não é sem razão que nos propomos liquidar o analfabetismo ao comemorar o décimo aniversário do poder soviético.

Alguém objetará, talvez, que tomo o conceito de cultura proletária num sentido muito amplo. Se não pode existir uma completa cultura proletária, plenamente desenvolvida, a classe operária, no entanto, pode ao menos pôr o seu selo na cultura antes de dissolver-se na sociedade comunista. Antes de tudo, deve-se anotar tal objeção como um grave desvio da posição da cultura proletária. O proletariado, durante o período de sua ditadura, deve marcar, indiscutivelmente, a cultura com seu selo. Daí para uma cultura proletária, se se entende por tal um sistema desenvolvido e interiormente coerente de conhecimento e informação em todos os domínios da criação material e espiritual, há contudo uma grande distância. Só o fato de que, pela primeira vez na história, dezenas de milhões saberão ler, escrever e fazer as quatro operações constituirá um acontecimento cultural da mais alta importância. A nova cultura, por essência, não será aristocrática, não será reservada para minorias privilegiadas, mas uma cultura de massa, universal, popular. Aí, também, a quantidade se transformará em qualidade: o crescimento do caráter de massa da cultura elevará o seu nível e modificará todos os seus aspectos. Esse processo só se desenvolverá através de uma série de etapas históricas. Cada sucesso enfraquecerá o caráter de classe do proletariado e, por conseguinte, o terreno para a cultura proletária desaparecerá.

Mas que dizer das camadas superiores da classe operária? E da sua vanguarda ideológica? Não se pode dizer que, nesse meio, ainda que restrito, se assiste agora ao desenvolvimento de uma cultura proletária? Não temos a Academia Socialista? Os professores vermelhos? Alguns cometem a falta de colocar a questão de modo tão abstrato. Parece que desejam criar uma cultura proletária com métodos de laboratório. As relações e interações, que existem entre a intelligentsia da classe e a própria classe, tecem, de fato, a malha essencial da cultura. A cultura burguesa - técnica, política, filosófica e artística r formou-se através da interação da burguesia e de seus inventores, dirigentes, pensadores e poetas. O leitor criava o escritor e o escritor criava o leitor. Isso vale, num grau infinitamente maior, para o proletariado, porque só se pode construir sua Economia, sua política e sua cultura com base na iniciativa criadora das massas. A tarefa principal da intelligentsia proletária, para o futuro imediato, não está, entretanto, na abstração de uma nova cultura - cuja base ainda falta ~ e sim no trabalho cultural mais concreto: ajudar, de forma sistemática, planificada e, certamente, crítica, as massas atrasadas a assimilar os elementos indispensáveis da cultura já existentes. Não se pode criar uma cultura de classe à revelia da classe. Para edificar essa cultura em cooperação com a classe e em estreita relação com a sua ascensão histórica geral, é preciso . . . construir o socialismo, pelo menos nas suas grandes linhas. As características de classe da sociedade, nesse processo, não se acentuarão, mas ao contrário desaparecerão pouco a pouco, até zero, na proporção direta dos êxitos da Revolução. O significado libertador da ditadura do proletariado está no seu caráter temporário, como um instrumento provisório -- muito provisório - para aplainar o caminho e colocar as fundações de uma sociedade sem classe e de uma cultura baseada na solidariedade.

Para explicar mais concretamente a idéia do período de edificação cultural, no desenvolvimento da classe operária, consideramos a sucessão histórica das gerações e não das classes. Dizer que as gerações se sucedem umas às outras - quando a sociedade progride e não quando está decadente - significa que cada uma delas acrescenta a sua contribuição à acumulação cultural anterior. Mas, antes de poder fazê-lo, cada nova geração atravessa um período de aprendizagem. Ela se apropria da cultura existente e a transforma, à sua maneira, tornando-a mais diferente da que a geração precedente deixou. Essa apropriação ainda não constitui uma nova criação, isto é, criação de novos valores culturais, mas somente a sua premissa. Essa observação se aplica ao destino das massas trabalhadoras, que se elevam ao nível da criação histórica. Só se precisa acrescentar que, antes de sair do estágio de aprendizagem cultural, o proletariado deixará de ser proletariado. Lembramos mais uma vez que a camada superior, burguesa, do Terceiro Estado fez a sua aprendizagem sob o teto da sociedade feudal; que, ainda no seio da sociedade feudal, ela ultrapassou, do ponto de vista cultural, as velhas castas dirigentes e tornou-se o motor da cultura antes de ascender ao poder. Ocorre de outro modo com o proletariado, em geral, e com o proletariado russo, em particular: ele precisou derrubar a sociedade burguesa, pela violência revolucionária, precisamente porque essa sociedade lhe barrava o acesso à cultura. A classe operária esforça-se por transformar seu aparelho do Estado numa poderosa bomba para satisfazer a sede cultural das massas. É uma tarefa de imensa importância histórica. Mas, se não se quer empregar as palavras imprudentemente, isso ainda não constitui a criação de uma cultura proletária própria. Cultura proletária, arte proletária etc., em três entre dez casos, empregam-se estes termos, entre nós, sem espírito crítico, para designar a cultura e a arte da próxima sociedade comunista; em dois casos entre dez, vara indicar o fato de que grupos particulares do proletariado adquiriram alguns elementos da cultura pré-proletária; e, enfim, em cinco casos entre dez, há uma confusão de idéias e termos, que não têm pé nem cabeça.

Eis um exemplo recente, tomado entre cem outros, de emprego visivelmente negligente, errôneo e perigoso da expressão cultura proletária: "A base econômica e o sistema de superestruturas, que lhe corresponde" ~ escreve o camarada Siso --- "formam a característica cultural de uma época (feudal, burguesa, proletária) . " Coloca-se, aqui, a época cultural do proletariado no mesmo plano que a época da burguesia. Mas o que se denomina época proletária só representa a curta passagem de um sistema social e cultural para outro, do capitalismo para o socialismo. A instauração do regime burguês foi igualmente precedida de uma época de transição, mas, ao contrário da revolução da burguesia, que se esforçou, não sem sucesso, por perpetuar a sua dominação, a Revolução proletária visa a liquidar a existência do proletariado enquanto classe, num prazo tão breve quanto possível. esse prazo depende, diretamente, do sucesso da Revolução. Não é de espantar que se possa esquecê-lo e colocar a época da cultura proletária no mesmo plano que a cultura feudal ou burguesa?

Se é assim, disso resulta que não temos ciência proletária? Não podemos dizer que a concepção materialista da história e a critica marxista da Economia Política constituem elementos científicos inestimáveis de uma cultura proletária? Não existe ai uma contradição?

A concepção materialista da história e a teoria do valor têm, seguramente, imensa importância, tanto como arma de classe do proletariado como para a ciência em geral. Há mais ciência verdadeira no Manifesto do Partido Comunista do que em bibliotecas inteiras, cheias de compilações, especulações e falsificações professorais sobre a Filosofia e a História. Pode-se dizer que o marxismo constitui um produto da cultura proletária? E também se pode dizer que utilizamos, efetivamente, o marxismo não só nas lutas políticas, mas igualmente nos problemas científicos gerais?

Marx e Engels saíram das fileiras da democracia pequeno-burguesa e, evidentemente, foi a cultura desta que os formou e não uma cultura proletária. Se não existisse a classe operária, com suas greves, suas lutas, seus sofrimentos e suas revoltas, não existiria o comunismo cientifico, porque não existiria a necessidade histórica. A teoria do comunismo científica formou-se sobre a base de uma cultura científica e política burguesa, ainda que lhe declarasse uma luta de morte. Sob os golpes das contradições do capitalismo, o pensamento universalizante da democracia burguesa se elevou, entre os seus representantes mais audaciosos, mais honestos e mais clarividentes, até uma genial negação de si mesma, armada com todo o arsenal critico da ciência burguesa. Tal é a origem do marxismo.

O proletariado não encontrou prontamente o seu método no marxismo e, mesmo hoje, ainda não o encontrou por completo. Agora esse método serve, exclusiva e principalmente, para fins políticos. O desenvolvimento metodológico do materialismo dialético e a sua larga aplicação ao conhecimento pertencem ainda ao futuro. Somente numa sociedade socialista o marxismo deixará de servir, unicamente, como instrumento da luta política para tornar-se um método de criação científica, o elemento e o instrumento essenciais da cultura.

Toda ciência, incontestavelmente, reflete mais ou menos as tendências das classes dominantes. Quanto mais uma ciência se liga estreitamente às tarefas práticas de dominação da natureza (a Física, a Química, as Ciências Sociais em geral), tanto maior é a sua contribuição humana, fora de considerações de classe. Na medida em que se vincule ao mecanismo social de exploração (a Economia Política) ou generaliza, abstratamente, a experiência humana (como a Psicologia, não no seu sentido experimental e fisiológico, mas no sentido dito filosófico), mais então se subordinará ao egoísmo de classe da burguesia e menor será a importância de sua contribuição à soma geral do conhecimento humano. O domínio das ciências experimentais conhece por sua vez diferentes graus de integridade e de objetividade científica, em função da amplitude das generalizações feitas. As tendências burguesas, em geral, desenvolvem-se mais livremente nas altas esferas da filosofia metodológica, da concepção do mundo. Eis por que é necessário limpar o edifício da ciência, de baixo para cima, ou, mais exatamente, de cima para baixo, porque se deve começar pelos estágios superiores. Seria ingênuo pensar, todavia, que o proletariado, antes de aplicar à edificação socialista a ciência herdada da burguesia, deve submetê-la inteiramente a uma revisão crítica. Seria a mesma coisa que dizer, com os moralistas utópicos: antes de construir uma nova sociedade, o proletariado deve elevar-se à altura da moral comunista. De fato, o proletariado transformará, radicalmente, a moral, assim como a ciência, somente depois de construir a nova sociedade, ainda que nas suas linhas gerais. Não caímos num círculo vicioso? Como construir uma sociedade nova com o auxílio da velha ciência e da velha moral? Aqui precisamos um pouco de dialética, dessa mesma dialética que espalhamos, generosamente, na poesia lírica, na administração, na sopa de couve e no mingau. A vanguarda proletária, para trabalhar, necessita de alguns pontos de apoio, de alguns métodos científicos suscetíveis de libertar a consciência do jugo ideológico da burguesia; em parte já os possui, em parte deve ainda adquiri-los. Ela já testou o seu método fundamental em numerosas batalhas e nas mais diversas condições. Mas, daí a uma ciência proletária, ainda há um longo caminho. A classe revolucionária não pode interromper o seu combate porque o partido ainda não decidiu se deve aceitar ou não a hipótese dos elétron e dos íons, a teoria psicanalítica de Freud, a genética, as novas descobertas matemáticas da relatividade etc. O proletariado, após conquistar o poder, terá, certamente, possibilidades muito maiores para assimilar a ciência e revê-la. É porém mais fácil dizer do que fazer. O proletariado não pode adiar a edificação do socialismo até que seus novos sábios, dos quais muitos ainda correm de calças curtas, verifiquem todos os instrumentos e todas as formas do conhecimento. O proletariado, rejeitando o que é, de modo claro, inútil, falso, reacionário, utiliza, nos diversos domínios da sua obra de reconstrução, os métodos e os resultados da ciência atual, tomando-os, necessariamente, com a percentagem de elementos de classe, reacionários, que eles contêm. O resultado prático justificar-se-á, no conjunto, porque a prática, submetida ao controle dos objetivos socialistas, realizará, gradualmente, a verificação e a seleção dos métodos e das conclusões da teoria. Crescerão, nesse meio tempo, os sábios, educados nas novas condições. O proletariado, de qualquer modo, deverá conduzir a edificação do socialismo a um nível bastante elevado, isto é, a um nível em que possa satisfazer, realmente, as necessidades materiais e culturais da sociedade, antes de empreender, de alto para baixo, o trabalho de critico marxista que numerosos círculos e seminários tentam realizar, abrangendo diversos campos. Esse trabalho é necessário e frutífero. Deve estender-se e aprofundar-se, em todas as direções. Devemos, todavia, conservar o sentido marxista da medida para avaliar o peso específico dessas experiências e dessas tentativas dentro da escala geral de nosso trabalho histórico.

Isso exclui a possibilidade de que surjam das fileiras do proletariado, enquanto ainda se está no período de ditadura revolucionária, eminentes sábios, inventores, dramaturgos e poetas? De nenhum modo. Constituiria, porém, imprudência dar o nome de cultura proletária às realizações, mesmo às mais válidas, de representantes individuais da classe operária. Não se deve trocar a noção de cultura em moeda de uso individual e não se pode definir o progresso da cultura de uma classe segundo os passaportes proletários de tais ou quais inventores ou poetas. A cultura representa a soma orgânica de conhecimentos e de informações que caracteriza toda sociedade ou, ao menos, a sua classe dirigente. Ela abarca e penetra todos os domínios da criação humana e unifica-os num sistema. As realizações individuais levantam-se acima desse nível e, gradualmente, o elevam.

Essa relação orgânica existe entre a nossa poesia proletária de hoje e a atividade cultural da classe operária no seu conjunto? É evidente que não. Operários, individualmente ou em grupos, iniciam-se na arte que a intellígentsia burguesa criou e se servem de sua técnica, de forma bastante eclética, no momento. Com o propósito, porém, de exprimir o seu próprio mundo interior, proletário? Não, seguramente, e longe disso. À obra dos poetas operários falta essa qualidade orgânica, que só uma ligação intima entre a arte e o desenvolvimento da cultura em geral pode proporcionar. Constituem obras literárias de operários dotados ou talentosos, mas de nenhum modo literatura proletária. Seria, entretanto, uma das fontes?

Naturalmente, no trabalho da geração atual, se encontram numerosos germes, raízes, fontes, aos quais qualquer futuro erudito, aplicado e diligente, remontará a partir dos diversos setores da cultura de amanhã, exatamente como os atuais historiadores da arte ligam o teatro de Ibsen aos mistérios religiosos, bem como o impressionismo ou o cubismo às pinturas dos monges. Na economia da arte, como na economia da natureza, nada se perde e tudo se interliga. Mas, de fato, concretamente, a produção atual dos poetas, saídos do proletariado, ainda não se desenvolve no mesmo plano que o processo de preparação das condições da futura cultura socialista, isto é, o processo de elevação das massas.

O camarada Dubovskoy ofendeu bastante um grupo de poetas operários - e parece que os lançou contra si - com um artigo, no qual, ao lado de idéias, a meu ver, discutíveis, exprimiu uma série de pensamentos, certamente um pouco amargos mas, no essencial, incontestáveis. O camarada Dubovskoy chega à conclusão de que a poesia proletária não se encontra no grupo Kuznitsa (A Forja), e sim nos jornais murais das fábricas, escritos por autores anônimos. Eis uma idéia correta, ainda que se exprima paradoxalmente. Poder-se-ia dizer, com muita razão, que os Shakespeare e os Goethe proletários, atualmente, correm descalços para alguma escola primária. A arte dos poetas de fábricas, incontestavelmente, está muito mais ligada, organicamente, com a vida, com as preocupações quotidianas e com os interesses da massa trabalhadora. Mas não representa uma literatura proletária. Trata-se somente da expressão escrita do processo molecular da elevação cultural do proletariado. Explicamos, acima, que isso não é a mesma coisa. Os correspondentes operários dos jornais, os poetas locais e os críticos executam enorme trabalho cultural, que desbrava o terreno e prepara as futuras sementeiras. A colheita cultural e artística, entretanto, será - felizmente! - socialista e não proletária.

O camarada Pletnev, num artigo interessante sobre "os caminhos da poesia proletária", declara que as obras dos poetas proletários, independentemente de seu valor artístico, já são significativas devido à sua ligação direta com a vida da classe. A partir de exemplos de poesia proletária, o camarada Pletnev mostra, de modo muito convincente, as mudanças no estado de espírito dos poetas proletários, diante do desenvolvimento geral da vida e das lutas do proletariado. Demonstra assim, irrefutavelmente, que as produções da poesia proletária -- não todas, mas muitas --- constituem documentos artísticos. "Que esses poemas sejam fracos, velhos na forma, cheios de faltas, eu o admito" -- escreve Pletnev, a propósito de um poeta operário que emergiu da religiosidade para a militância revolucionária - "mas eles não marcam o caminho de progresso para a poesia proletária?" Sem dúvida: mesmo fracos, incolores e cheios de erros, os versos podem marcar o caminho do progresso político de um poeta e de uma classe, possuindo imensurável significação como sintoma cultural. Os poemas fracos - e mais ainda aqueles que revelam a ignorância do poeta ~ não constituem poesia proletária, simplesmente porque não constituem poesia. É muito interessante notar que, traçando um paralelo entre a evolução política dos operários e o progresso revolucionário da classe operária, o camarada Pletnev constata, com acerto, que, há já alguns anos, sobretudo desde o início da NEP, os escritores se desligam da classe operária. O camarada Pletnev explica a "crise da poesia proletária" .-- acompanhada de uma tendência para o formalismo e o filisteísmo - pela insuficiência da formação política dos poetas e pela pouca atenção que lhe concede o partido. Disso resulta, diz Pletnev, que os poetas "não resistem à pressão colossal da ideologia burguesa: eles cederam ou estão em via de ceder diante dela". Essa explicação é, nitidamente, insuficiente. Que "colossal pressão da ideologia burguesa" pode existir entre nós? Não é preciso exagerar. Não discutiremos para saber se o partido poderia fazer mais ou não em favor da poesia proletária. Isso não basta para explicar a falta de poder de resistência dessa poesia, da mesma forma que uma violenta gesticulação de classe (no estilo do manifesto da KuznUsa) não compensa essa falta de poder de resistência. O fundo da questão está em que, no período pré - revolucionário e no primeiro período da Revolução, os poetas proletários não consideravam a versificação uma arte, q}e tem as suas próprias leis, mas um meio para lamentar s}a triste sorte ou expor seus sentimentos evolucionários. Os poetas proletários só encararam a poesia como arte e como ofício nos últimos anos, depois que diminuiu a tensão da guerra civil. Tornou-se claro, assim, que o proletariado ainda não criou o meio cultural na arte, enquanto a intelligentsia burguesa |em o seu, bom ou mau. Não porque o partido ou os seus dirigentes não ajudaram suficientemente, e sim porque as massas não estavam artisticamente preparadas. E a arte, como a ciência, exige preparação. Nosso proletariado possui a sua cultura política - na medida necessária para manter a sua ditadura - mas não uma cultura artística. Enquanto os poetas proletários marchavam, militarmente, nas fileiras de combate, seus versos, como já o dissemos, conservavam o valor de documentos revolucionários. Quando, porém, tiveram de enfrentar as questões do ofício e da arte, começaram, voluntariamente ou não, a buscar um novo ambiente. Não existe, pois, falta de atenção, mas um condicionamento histórico mais profundo. Isso não significa, entretanto, que os poetas operários, mergulhados nessa crise, estejam perdidos, definitivamente, para o proletariado. Esperamos que alguns deles, pelo menos, saiam fortalecidos. Isso, porém, tampouco quer dizer que os grupos de poetas operários de hoje se destinam a colocar os fundamentos inquebrantáveis de uma nova e grande poesia. Nada disso. Este privilégio, ao que parece, caberá às gerações futuras, que também atravessarão seus períodos de crise. Haverá, ainda por longo tempo, muitos desvios de grupos e círculos, muitas hesitações e erros ideológicos e culturais, cuja causa profunda reside na falta de maturidade cultural da classe operária.

K estudo da técnica literária representa uma etapa indispensável e exige tempo. A técnica manifesta-se, de modo mais acentuado, precisamente entre aqueles que não a dominam. Pode-se dizer, com justiça, que muitos jovens escritores proletários não dominam a técnica. Mas, ao contrário, é a técnica que os domina. Para alguns, os mais talentosos, isso constitui apenas uma crise de crescimento. Mas aqueles que não poderão dominar a técnica parecerão sempre artificiais, imitadores e mesmo afetados. Seria absurdo concluir que os operários não necessitam da técnica da arte burguesa. Muitos caem nesse erro. "Dai-nos" - dizem eles -"alguma coisa que seja nossa, mesmo mal feita, mas que seja nossa." Isso é falso e enganoso. Arte mal feita não é arte e, em conseqüência, os trabalhadores não precisam dela. 0 conformista da arte mal feita guarda, no fundo, boa parte de desprezo pelas massas e se torna muito importante para certos tipos de politiqueiros, que nutrem desconfiança orgânica na força da classe operária, mas a elogiam quando tudo vai bem. Os inocentes, atrás dos demagogos, repetem essa fórmula de simplificação pseudoproletária. Não se trata de marxismo, e sim de populismo reacionário, apenas pintado de ideologia proletária. A arte, que se destina ao proletariado, não pode ser de baixa qualidade. É preciso aprender, embora esses estudos - que, necessariamente, se fazem no inimigo - comportem certo perigo. É preciso aprender, e a importância de organizações como a Proletkult não se mede pela rapidez com que criam uma nova literatura, mas pelo que contribuem para a elevação do nível literário da classe operária, a começar pelas suas camadas superiores.

Termos como literatura proletária e cultura proletária são perigosos quando comprimem, artificialmente, o futuro cultural no quadro estreito do presente, falseiam as perspectivas, violentam as proporções, desnaturam os critérios e cultivam de modo muito arriscado a arrogância dos pequenos círculos.

Se rejeitamos o termo cultura proletária, que fazer então com o Proletkult? Convenhamos então que Proletkult significa atividade cultural do proletariado, isto é, a luta encarniçada para elevar o nível cultural da classe operária. Tal interpretação, na verdade, não diminui em nada a sua importância.

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