sexta-feira, 4 de junho de 2021

Copa América no Brasil: para além do futebol, um conflito econômico, político e sanitário.¹

Meme sobre a realização da Copa América no Brasil

Depois das desistências de Colômbia e Argentina em sediar a Copa América, a Conmebol opta por realizar o maior torneio das Américas no Brasil e é prontamente atendida por Bolsonaro a despeito de toda a situação sanitária do país diante da pandemia do novo Coronavírus.

Pela primeira vez na história da Copa das Américas, a disputa pelo título de “Campeão das Américas” aconteceria em dois países, Argentina e Colômbia. Planejada para acontecer em Junho de 2020, a competição enfrentou vários percalços antes mesmo de seu início, o maior deles, certamente, tem sido a pandemia da Covid-19. Devido a grave situação sanitária envolvendo todo o mundo, a Copa América teve que ser adiada, tendo seu calendário reajustado e início marcado para este mês, Junho de 2021, e não contará com as duas seleções convidadas,  Qatar e Austrália. A Conmebol, no entanto, não contava com a desistência dos países-sede em realizar o torneio.

Como a Colômbia deixou de ser sede da Copa América

Assim como no Brasil, a situação do povo colombiano frente ao enfrentamento da pandemia não é das melhores. O país é o terceiro da América Latina com o maior número de mortes e contágio pelo vírus. Como bem sabemos, sem política social que garanta condições de sobrevivência mínimas em uma situação de calamidade, as taxas de desigualdade social crescem vertiginosamente, e assim aconteceu no país, 15% da população colombiana vive em estado de extrema pobreza, o maior índice registrado nos últimos 10 anos.

Seguindo uma cartilha econômica muito parecida com a de Paulo Guedes, Carrasquilha, ex-ministro da economia da Colômbia, propõe uma reforma tributária que impõe aos setores médios um aumento no pagamento de juros, afim de custear as medidas sociais e pagar a dividida externa do país, e poupa os mais ricos dessa tributação.

Iván Duque, presidente colombiano, não conseguiu reverter o quadro de insatisfação popular diante da reforma tributária, não garantiu sobrevivência ao povo e nem conseguiu conter o vírus no país. Estava dado o cenário para uma das maiores revoltas no país.

Em meio a uma massiva onda de protestos, a Colômbia ainda chegou a receber jogos da Copa Libertadores da América. Nos dias 12 e 13 de maio, os jogos entre Júnior Barranquilla e River Plate e Atlético-MG e América de Cali, respectivamente, precisaram ser paralisados devido às manifestações que ocorriam do lado de fora dos estádios e os jogadores passarem mal por inalar gás lacrimogêneo. A solução encontrada pela Conmebol foi transferir os demais jogos que aconteceriam no país e apostar num apaziguamento da situação para manter os jogos da Copa América. Sim, mesmo diante do ocorrido na partida da Libertadores, a Confederação Sul – americana não havia cogitado ainda não ter mais a Colômbia como país-sede.

A situação política no país não melhorou e, mesmo vivendo a terceira onda da pandemia, a pior de todas até agora, o povo colombiano não saiu das ruas e seguiu com os protestos pela sobrevivência! No dia 20 de maio, a Colômbia abre mão de sediar a disputa.

Argentina também está fora dos planos da Conmebol

Diante da desistência por parte da Colômbia em sediar a disputa continental, caberia à Argentina receber as 10 seleções que disputarão o torneio. No entanto, com o aumento do número de casos e mortes no país, o governo argentino decidiu abandonar a posição de país-sede. O ministro do interior da Argentina, Wado de Pedro, chegou a dizer que seria inviável organizar a disputa no país, principalmente em Mendoza, Córdoba, Buenos Aires, Tucumán e Santa Fé.

É importante ressaltar que a AFA, federação argentina de futebol, suspendeu a realização de torneios nacionais, o que demonstra coerência do país ao desistir de sediar a disputa continental.

A Argentina vive o seu pior momento na pandemia, o país ocupa o segundo lugar da América do Sul em números de contaminação e morte, ficando atrás do Brasil. Os números da pandemia no território argentino, segundo dados da OMS, são de  3.732.263 de casos confirmados, sendo quase 30 mil registrados só nas últimas 24 horas,  e 77.108 mortes por COVID-19, 415 nas últimas 24 horas[2], em decorrência dos números recordes, o país vive em regime de lockdown.

Com o fechamento dos postos de trabalho, os argentinos também estão tendo que enfrentar problemas como o desemprego e o governo de Alberto Fernández enfrenta uma onda, ainda que leve, de protestos quase que cotidianamente. O ex-ministro da saúde do país, no entanto, aponta para o fato de que a população argentina não questiona a gravidade da situação, não um movimento negacionista parecido com o que ocorre no Brasil, nas palavras de Adolfo Rubinstein.

Também na Argentina, assim como na Colômbia, no Brasil e em diversos países no globo, a relação de contaminação por Covid-19 e a situação de vulnerabilidade da população é sentida.

O governo argentino ainda tem muitas dificuldades para encarar. O país agora que vive a segunda onda de contaminação e, caso não avance no processo de imunização, pode ainda contar com muitas vidas perdidas e assistir a um colapso do sistema de saúde, humanitário e financeiro.

A Copa América chega ao Brasil

Meme satirizando a realização da Copa América no Brasil quando o país se aproxima de uma terceira de contaminação pelo Coronavírus

Após a desistência dos dois países-sede a poucas semanas do evento, a Confederação Sul-americana precisou procurar um novo lugar para a realização da competição das seleções sul-americanas. A entidade chegou a receber propostas oficiais dos governos equatoriano e venezuelano, mas recusou. Vale destacar que os dois países apresentam um dos menores números pandêmicos na América do Sul.

Diante do grande impasse, a Conmebol procurou a CBF – Confederação Brasileira de Futebol – para tratar sobre o tema com o governo brasileiro, o que indica um grave problema de entendimento da pandemia por parte daquela entidade.

O Brasil é terceiro país do mundo com mais casos de contágio e mortes por Covid-19, estando atrás apenas dos Estados Unidos, que já vacinou toda sua população e não tem mais registros de contaminação e mortes nas últimas 24 horas, e da Índia. Em se tratando da América do Sul, o território brasileiro é o primeiro lugar de casos totais de Covid-19, vive a iminência de uma terceira onda de contaminação e é considerado o novo epicentro da pandemia.

A decisão da Conmebol em manter o torneio já é irresponsável pelos índices pandêmicos que a América do Sul apresenta e é irracional ao escolher o Brasil como nova sede para a disputa da taça. A justificativa dada pela entidade para a escolha foi que o país já tem os equipamentos esportivos prontos e adequados a disputas internacionais pelo padrão FIFA.

Bolsonaro, ao contrário do tratamento que deu aos e-mails da Pfizer ofertando vacinas contra o novo Coronavírus, respondeu prontamente à solicitação da Conmebol e assegurou, na última segunda-feira, 31/05, a realização da copa das Américas em solo brasileiro nos meses de Junho e Julho. A notícia, evidentemente, pegou vários países de surpresa e gerou indignação em uma parcela da sociedade. Jornalistas esportistas manifestaram-se de forma contundente diante da resposta afirmativa do planalto central.

Logo após a repercussão negativa nas redes sociais, o Ministro da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, deu uma declaração afirmando que não havia nada concreto ainda, tinha-se apenas uma reunião entre o Governo Federal e a CBF, mas que “não houve batida de martelo”. Ainda na declaração da noite de segunda-feira, Ramos apontou para o fato de que os campeonatos nacionais e internacionais seguem ocorrendo normalmente no país. E que, caso o evento da Conmebol seja realizado aqui, todos os membros das 10 comitivas deverão ser vacinados. Essa até poderia ser considerada uma medida responsável e coerente, se no Brasil tivesse vacina para todos, se não estivéssemos vacinando, ainda, os grupos prioritários. A indicação do ministro é irreal diante do atual cenário de vacinação brasileiro e sul-americano.

As competições futebolísticas, a pandemia e o governo brasileiro

Em plena pandemia, Bolsonaro à Silvio Santos um selo em homenagem aos 90 anos do dono do SBT
Seguindo uma onda de suspensão de jogos e competições esportistas que aconteciam em todo o mundo, a CBF decidiu suspender a realização das competições nacionais sob sua responsabilidade em março do ano passado. Outros países fizeram o mesmo e confederações internacionais também adiaram suas competições, foi nesse período que o Comitê Olímpico anunciou o adiamento para julho deste ano a realização das Olimpíadas 2020.

No que diz respeito aos campeonatos organizados pela CBF, tivemos a suspensão do Brasileirão, Copa do Brasil e campeonatos estaduais, mas a medida não durou muito tempo. Em Junho do ano passado, com o país vivendo o pico de sua primeira onda, os campeonatos estaduais recomeçaram. A pressão se deu início no Rio de Janeiro, com o Flamengo encabeçando a lista de times que queriam o retorno dos jogos, mesmo que sem torcida.

A retomada dos estaduais mostrou a face mais desigual do esporte mais popular no Brasil. Times como o Flamengo, com um alto investimento de patrocinadores e alta cota de televisão, conseguiu estabelecer um protocolo de testagem para seus jogadores de fazer inveja ao governo federal, que não se empenhou em nenhum momento da atual crise sanitária para fazer testagem em massa. No entanto, essa não é a realidade de todos os times brasileiros. Times menores tiveram que cancelar contratos de jogadores porque não tinham condições de manter a folha de pagamento. Durante a disputa da série B do Campeonato Brasileiro, o Guarani teve 17 jogadores que testaram positivo para Covid-19 e teve que pedir adiamento da partida contra o Cuiabá porque não tinha elenco disponível para a partida. A CBF, no entanto, considerou satisfatório os resultados fora de campo com uma taxa de contaminação de 2,2% dos jogadores e comissão técnica dos clubes e decidiu por manter as disputas por títulos nacionais em 2021.

É fato que a retomada do futebol atende a uma demanda financeira dos clubes. Sem partida, os patrocinadores não têm divulgação de suas marcas e os clubes não recebem pelo direto de transmissão dos jogos, embora não tenham perdido contratos.

No que diz respeito às disputas continentais, a Conmebol retomou os jogos da Libertadores seis meses após sua parada, mesmo com nove clubes que estavam na disputa do torneio tendo jogadores testados para Covid-19.

Em meio a todo esse caos, Bolsonaro se divertia, e fazia seus aliados rirem, com declarações negacionistas sobre a pandemia, chamando de “gripezinha” e, mais recentemente, imitando pessoas com falta de ar, um dos sintomas mais graves da Covid-19. O presidente do país fazia toda essa chacota com a população brasileira enquanto trocava de camisas de times com as quais aparecia em suas lives para disseminar o uso do Kit Covid.

Bolsonaro não demonstrou, em mais de um ano de crise sanitária responsabilidade no combate ao novo Coronavírus. Fez o que pode para atrasar o processo de vacinação no Brasil. Rejeitou 70 milhões de doses da Pfizer, cortou gastos e proibiu contratação de vacinas do Butantan. Por que então nos causa surpresa que ele aceite os jogos da Copa América? E mais, por que nos surpreende que a Conmebol, que também já deu provas de que não está dando tanta importância à pandemia tenha escolhido o Brasil como sede da competição?

A verdade é que não nos surpreende se analisarmos todos os fatos envolvidos nesse acordo de morte estabelecido por Bolsonaro e Conmebol.

A Conmebol já estima um prejuízo de US$ 30 milhões com a realização do torneio sem público e sem a participação do Catar  e da Austrália, a entidade não pensaria em cancelar a disputa em nome da saúde dos atletas e da comissão técnica e encontrou no Brasil o lugar adequado para propor uma final no Maracanã, maior estádio nacional, com a presença de torcida. Se já não fosse ruim o bastante, Bolsonaro indica o estádio de Manaus como possível local de jogos. Manaus perdeu vidas por falta de oxigênio para pacientes com Covid-19. Manaus não conseguia respirar! E para seguir com sua política de pão e circo, Bolsonaro oferece a Arena da Amazônia como palco para uma catástrofe anunciada.


Bolsonaro também não deixaria de favorecer ao Sistema Brasileiro de Televisão – SBT – que ganhou o direito de transmissão dos jogos da Copa América desbancando a concorrente Rede Globo, até então dona exclusiva da transmissão da maioria dos campeonatos nacionais e continentais de futebol. A relação de Bolsonaro com o canal de televisão não é recente, mesmo antes de ser eleito, era possível ver os maiores nomes da empresa fazendo campanha para o então Deputado Federal. Depois de eleito, foi ao SBT que Bolsonaro concedeu a primeira entrevista. Sem falar na jornalista Rachel Sheherazade, que foi demitida após  exigência de Luciano Hang, dono da Havan, por ter posicionamentos políticos contrários a Bolsonaro.

Não podemos esquecer também que Bolsonaro aceita sediar a Copa América dois dias depois de atos massivos contra seu governo e exigindo vacina para todos! A resposta que Bolsonaro deu ao povo foi de pouca importância às nossas demandas. Com esse aceite, o presidente deixa claro seu papel na presidência, fazer o que a ditadura não fez, matar mais de 100 milhões de brasileiras e brasileiros. Bolsonaro assina sua confissão de genocida!

 



[1] Este artigo foi escrito no dia 01/06/2021

[2] Ao dados foram retirados do site https://covid19.who.int/table no dia 01/06/2021


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