sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Sex and the City: sapatos, homens e estereótipos

O fato de um filme produzido por mulheres ter atingido o topo das bilheterias neste fim-de-semana – num momento em que a liderança feminina está sumindo de Hollywood – deveria ser motivo de celebração. Até você ver o filme.


Jen Roesch (www.socialistworker.org)




Reprodução
Cartaz original do filme

• A série de televisão Sex and the city foi, freqüentemente, descrita como um show pioneiro sobre a importância de amizades entre mulheres e aplaudida por sua discussão franca sobre a sexualidade feminina. Mas isto sempre foi um “pigmento” da imaginação pós-feminismo. Carrie, Miranda, Samantha e Charlotte são virtualmente irreconhecíveis como mulheres do mundo real, onde o resto de nós vive. Suas amizades são envolvidas de discussões sem fim sobre a procura pelo “Sr. Certo” e por pares perfeitos de sapatos de grife – tudo envolto por almoços e coquetéis agendados de acordo com horários de supostos trabalhos.

Mas ao menos na “telinha”, em digestíveis episódios de trinta minutos, o programa podia até ser interessante e ocasionalmente abordar assuntos reais. Por exemplo, a temporada que tratou da luta de Samantha contra o câncer de mama. Teve momentos genuínos e tocantes. Mas o filme volta a trabalhar temas pedantes e um insultante cociente, sem nenhuma das qualidades que tornavam a série digna de perdão.

Desde o momento inicial do filme, fica claro que pretende tratar-se totalmente do narcisismo e consumismo, já que uma montagem de uma bem vestida – e ignorantemente magra – jovem mulher aparece cruzando as telas. Carrie diz numa narrativa que todos os anos, milhares de mulheres com seus vinte e poucos anos vêm a Manhattam em busca do “2L’s: “Labels and love” (marcas e amor).

Com nossas vidas penosamente resumidas. O filme continua a nos servir duas horas (sim, duas) de estereotipos femininos. O que as mulheres querem hoje em dia? Aparentemente, elas querem sapatos de Manolo Blahnik que custam 500 dólares, coberturas, vestidos de noiva desenhados por estilistas famosos e o homem perfeito. Samantha agarra seu pedido de “independência” ao comprar um anel de 60 mil dólares para celebrar a si mesma.

O conflito central do filme são os planos de Carrie de se casar com Big. O que começa como uma decisão mútua entre adultos termina no que muitos escritores hollywoodianos chamariam de o ápice da fantasia feminina. Nós gastamos aproximadamente uma hora assistindo Carrie experimentando diversas sucessões de vestidos e estilistas e planejando uma festa com 200 pessoas da alta sociedade para celebrar o coroamento de sua conquista. Aparentemente, esse é o ápice dos sonhos de todas as quarentonas bem-sucedidas.

É claro, algo tem de destruir essa imagem tão perfeitinha. Por isso, as outras duas horas dizem respeito à separação de Carrie e Big e sua inevitável reconciliação – e sempre com “suas garotas” ao seu lado. Como precisavam de algo para preencher o tempo de desenvolvimento do filme, tiveram de usar alguns problemas de menor importância de suas amigas. Discussões sobre moda preenchem outras espaços em branco do filme.

Uma adição para que o filme mereça ser comentado é a personagem de Louise que vem de St. Louis como sua assistente pessoal encarregada de “arrumar” a vida de Carrie. Como a única personagem central negra (e de classe trabalhadora), Louise – ou o modo como é tratada no filme – é decepcionante. Louise é inteligente e charmosa, obcecada por moda, é exposta ao “grato” papel de servente numa posição desigual a qual nós deveríamos apreciar.

Para todo o desapontamento, Sex and the city é considerado o mais novo “hit” da América. E está sendo visto como um fenômeno. Assim como está gerando discussões sobre o que o filme representa, o que as mulheres querem e o que isso significa para o futuro das mulheres no cinema. É aqui que as coisas vão de irritantes e pedantes para depressivas e dignas de fúria.

Há aqueles que vêem o filme como a nova face da libertação sexual feminina. A idéia de que as vidas invejadas dessas mulheres ricas representa liberdade é um insulto para as milhões de mulheres que continuam lutando por uma medida genuína de igualdade.

Certamente uma coisa boa é o fato de as mulheres poderem falar abertamente sobre sua vida sexual na “telona” (mesmo que existam preciosos e curtos momentos disso no filme). Mas é algo que parece sem sentido justo no momento que os direitos de aborto estão sendo destruídos e mulheres continuam sendo tratadas como objetos sexuais.

E é degradante para a qualidade e para a importância da amizade feminina retratá-las em volta de sexo e moda – como se mulheres não tivessem nenhuma outra preocupação ou objetivo.

Seria interessante se o sucesso de bilheteria de Sex and the city inspirasse uma onda de filmes que realmente falassem sobre os verdadeiros problemas da vida feminina. Mas eu não apostaria nisso.

Hollywood é tanto um reflexo quanto um propagador de uma cultura que difama as mulheres. Até mesmo quando um filme como Sex and the city consegue “estourar”, é porque o filme reforça essa cultura, não a desafia.

Falar de amizades entre mulheres, mulheres solteiras entre seus trinta e quarenta anos, construindo suas próprias vidas na cidade, falar sobre verdadeiras relações e explorações sexuais seria bem-vindo para a cultura popular. Um retrato honesto desses assuntos hoje em dia seria, sem dúvida, pioneiro: mas, ao contrário disso, Sex and the city trabalha nas mesmas raízes antigas e estereótipos.

Tradução: Luis Gaspar

*publicado no site do PSTU em 16/06/2008.

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