sábado, 19 de junho de 2010

A plenos pulmões_ Maiakovski


Caros
camaradas
futuros!
Revolvendo
a merda fóssil
de agora,
pesquisando
estes dias escuros,
talvez
perguntareis
por mim.
Ora,
começará
vosso homem de ciência,
afagando os porquês
num banho de sabença,
conta-se
que outrora
um férvido cantor
a água sem fervura
combateu com fervor.
Professor,
jogue fora
suas lentes de arame!
A mim cabe falar
de mim
de minha era.
Eu ? incinerador,
eu ? sanitarista,
a revolução
me convoca e me alista.
Troco pelo front
a horticultura airosa
da poesia ?
fêmea caprichosa.
Ela ajardina o jardim virgem
vargem
sombra
alfombra.
"É assim o jardim de jasmim,
o jardim de jasmim do alfenim."
Este verte versos feito regador,
aquele os baba,
boca em babador, ?
bonifrates encapelados,
descabelados vates ?
entendê-los,
ao diabo!,
quem há-de...
Quarentena é inútil contra eles
? mandolinam por detrás das paredes:
"Ta-ran-tin, ta-ran-tin,
ta-ran-ten-n-n..."
Triste honra,
se de tais rosas
minha estátua se erigisse:
na praça
escarra a tuberculose;
putas e rufiões
numa ronda de sífilis.
Também a mim
a propaganda
cansa,
é tão fácil
alinhavar
romanças, ?
Mas eu
me dominava
entretanto
e pisava
a garganta do meu canto.
Escutai,
camaradas futuros,
o agitador,
o cáustico caudilho,
o extintor
dos melífluos enxurros:
por cima
dos opúsculos líricos,
eu vos falo
como um vivo aos vivos.
Chego a vós,
à Comuna distante,
não como Iessiênin,
guitarriarcaico.
Mas através
dos séculos em arco
sobre os poetas
e sobre os governantes.
Meu verso chegará,
não como a seta
lírico-amável,
que persegue a caça.
Nem como
ao numismata
a moeda gasta,
nem como a luz
das estrelas decrépitas.
Meu verso
com suor
rompe a mole dos anos,
e assoma
a olho nu,
palpável,
bruto,
como a nossos dias
chega o aqueduto
levantado
por escravos romanos.
No túmulo dos livros,
versos como ossos,
se estas estrofes de aço
acaso descobrirdes,
vós as respeitareis,
como quem vê destroços
de um arsenal antigo,
mas terrível.
Ao ouvido
não diz
blandícias
minha voz;
lóbulos de donzelas
de cachos e bandós
não faço enrubescer
com lascivos rondós.
Desdobro minhas páginas
? tropas em parada,
e passo em revista
o front das palavras.
Estrofes estacam
chumbo-severas,
prontas para o triunfo
ou para a morte.
Poemas-canhões, rígida coorte,
apontando
as maiúsculas
abertas.
Ei-la,
a cavalaria do sarcasmo,
minha arma favorita,
alerta para a luta.
Rimas em riste,
sofreando o entusiasmo,
eriça
suas lanças agudas.
E todo
este exército aguerrido,
vinte anos de combates,
não batido,
eu vos dôo,
proletários do planeta,
cada folha
até a última letra.
O inimigo
da colossal
classe obreira,
é também
meu inimigo
mortal.
Anos
de servidão e de miséria
comandavam
nossa bandeira vermelha.
Nós abríamos Marx
volume após volume,
janelas
de nossa casa
abertas amplamente,
mas ainda sem ler
saberíamos o rumo!
onde combater,
de que lado,
em que frente.
Dialética,
não aprendemos com Hegel.
Invadiu-nos os versos
ao fragor das batalhas,
quando,
sob o nosso projétil,
debandava o burguês
que antes nos debandara.
Que essa viúva desolada,
? glória ?
se arraste
após os gênios,
melancólica.
Morre,
meu verso,
como um soldado
anônimo
na lufada do assalto.
Cuspo
sobre o bronze pesadíssimo,
cuspo
sobre o mármore viscoso.
Partilhemos a glória, ?
entre nós todos, ?
o comum monumento:
o socialismo,
forjado
na refrega
e no fogo.
Vindouros,
varejai vossos léxicos:
do Letes
brotam letras como lixo ?
"tuberculose",
"bloqueio",
"meretrício".
Por vós,
geração de saudáveis, ?
um poeta,
com a língua dos cartazes,
lambeu
os escarros da tísis.
A cauda dos anos
faz-me agora
um monstro,
antediluviano.
Camarada vida,
vamos,
para diante,
galopemos
pelo qüinqüênio afora.
Os versos
para mim
não deram rublos,
nem mobílias
de madeiras caras.
Uma camisa
lavada e clara,
e basta, ?
para mim é tudo.
Ao Comitê Central
do futuro
ofuscante,
sobre a malta
dos vates
velhacos e falsários,
apresento
em lugar
do registro partidário
todos
os cem tomos
dos meus livros militantes

sexta-feira, 18 de junho de 2010

A falsa crítica e moral das novelas

Sob a ideia de responsabilidade social, as novelas tendem a levantar temas polêmicos na sociedade, as globais fazem isso com mais incidência, principalmente no horário "nobre". Já vimos tramas que falaram sobre a homossexualidade, prostituição, doenças mentais, como esquizofrenia, dentre outras. O trabalho social atual é sobre a questão do aborto, tema muito polêmico e que ainda está em discussão em Brasília. Desde a última semana, quem assistiu à novela tem visto o drama da adolescente Fátima (Bianca Bin) ao descobrir que está grávida de Danilo (Cauã Reymond). O fato é que o playboy não quer "confusão" pra sua vida e joga toda responsabilidade da gravidez para a moça. Fátima, desesperada, procura uma senhora que faz abortos clandestinos e interrompe a gravidez e, como consequência de um aborto mal feito, pega uma infecção generalizada muito grave. A mãe sem saber de nada leva a filha ao hospital e quando decobre o que a filha fez desespera - se e roga a Nossa Senhora o perdão para a filha. Muito bonito de se ver...
A grande questão é que a Rede Globo sempre faz questão de esconder o verdadeiro problema das coisas, a questão não é apenas como é feito um aborto, mas porque ele é feito dessa maneira. Até hoje no Brasil, aborto é ilegal, a mulher não tem o direito de escolher quando quer ter um filho, e nos casos em que os "companheiros" não querem essa gravidez também, muitas vezes elas são abandonadas, ou arriscam -se em um aborto clandestino, como muitas vezes é o que acontece. A questão do aborto é muito mais complicada do que uma novela possa expressar em seus poucos meses de exibição, ainda mais quando o faz de uma maneira simplista, caso das tramas globais. Não dá pra desvincular o aborto da questão de saúde pública, não dá pra fechar os olhos pra quantidade de mulheres que morrem por causa de abortos mal feitos, que ficam impossibilitadas de engravidarem novamente, dentre outros problemas. Não dá pra culpar unicamente a mulher... A ilegalidade do aborto vem de questões muito mais subjetivas que objetivas; o estado não quer dar um sistema de saúde decente para a população pobre do país, é só ver a política de saúde pública implementada pelo governo; a nossa sociedade ainda é machista e opressora e não permite que nós, mulheres, trabalhadoras, exploradas, decidamos sobre nossas vidas e nossos corpos; o apelo religioso é muito grande, e por vezes contraditório, basta ver a igreja católica, que é contra o aborto, contra os métodos contraceptivos, contra os homossexuais, contra..., contra..., contra mais um monte de coisas. Para além disso tudo, ainda tem os casos mais sensivéis, como o retratado na novela, a menina pobre que se apaixona pelo cara rico, transa uma única noite com ele, fica grávida, e o cara manda ela "se virar", isso não é exclusividade da ficção, a vida real está cheia desses casos e o governo não dá conta disso... porque não quer.
A classe trabalhadora não precisa de um falso meio de entretenimento, porque é isso que as novelas são, elas nos dizem o que vestir, o que comer, o que pensar, sem que percebamos tudo isso. A classe trabalhadora precisa de informação, verdade operária e não a burguesa. As mulheres trabalhadoras precisam saber por que elas e suas filhas correm risco de morte ao fazerem um aborto ilegal e clandestino e porque elas têm que fazer esse procedimento dessa forma, ao passo que as mulheres burguesas têm um acompanhamento decente e podem fazer um aborto de maneira mais segura onde não corram tantos risco...

Cadê a Responsabilidade Social da Rede Globo de Televisão? Cadê o Compromisso Social dessa emissora?
A Rede Globo De Rádio e Televisão tem responsabilidades com a burguesia, com o capitalismo, com a exploração do homem pelo homem, com a alienação, com a manipulação... A Globo e suas novelas servem aos patrões, toda a programação é pra manter uma falsa ideia de entretenimento enquanto manipula nossas vidas.

Abaixo ao Falso Entretenimento!
Abaixo à Rede Globo
Abaixo ao Capitalismo
Pela Legalização Do Aborto!
Luta Mulher!

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Só pra constar, o poema abaixo é José da Silva Maia Ferreira,outro poeta angolano.

À MINHA TERRA ! (No momento de avistá-la depois de uma viagem.)


De leite o mar - lá desponta
Entre as vagas susurrando
A terra em que scismando
Vejo ao longe branquejar!
É baça e proeminente,
Tem d'Africa o sol ardente,
Que sobre a areia fervente
Vem-me a mente acalentar.

Debaixo do fogo intenso,
Onde só brilha formosa,
Sinto n'alma fervorosa
O desejo de a abraçar:
É a minha terra querida,
Toda d'alma, - toda - vida, -
Qu'entre gozos foi fruida
Sem temores, nem pesar.

Bem vinda sejas ó terra,
Minha terra primorosa,
Despe as galas - que vaidosa
Ante mim queres mostrar:
Mesmo simples teus fulgores,
Os teus montes tem primores,
Que às vezes falam de amores
A quem os sabe adorar!

Navega pois, meu madeiro
Nestas aguas d'esmeraldas,
Vai junto do monte ás faldas
Nessas praias a brilhar!
Vae mirar a natureza,
Da minha terra a belleza,
Que é singella, e sem fereza
Nesses plainos d'alem-mar!

De leite o mar, - eis desponta
Lá na extrema do horizonte,
Entre as vagas - alto monte
Da minha terra natal;
É pobre, - mas tão formosa
Em alcantis primorosa,
Quando brilha radiosa,
No mundo não tem igual!

Carta dum Contratado_ António Jacinto


Eu queria escrever-te uma carta
amor
uma carta que dissesse
deste anseio
de te ver
deste receio de te perder
deste mais que bem querer que sinto
deste mal indefinido que me persegue
desta saudade a que vivo todo entregue...

    Eu queria escrever-te uma cara
    amor
    uma carta de confidências íntimas
    uma carta de lembranças de ti
    de ti
    dos teus lábios vermelhos como tacula
    dos teus cabelos negros como dilôa
    dos teus olhos doces como macongue
    dos teus seios duros como maboque
    do teu andar de onça
    e dos teus carinhos
    que maiores não encontrei por aí...

    Eu queria escrever-te uma carta
    amor
    que recordasse nossos dias na capôpa
    nossas noites perdidas no capim
    que recordasse a sombra que nos caía dos jambos
    o luar que se coava das palmeiras sem fim
    que recordasse a loucura
    da nossa paixão
    e a amargura nossa separação...

    Eu queria escrever-te uma carta
    amor
    que a não lesses sem suspirar
    que a escondesses de papai Bombo
    que a sonegasses a mamãe Kieza
    que a relesses sem a frieza
    do esquecimento
    uma carta que em todo Kilombo
    outra a ela não tivesse merecimento...

    Eu queria escrever-te uma carta
    amor
    uma carta que te levasse o vento que passa
    uma carta que os cajus e cafeeiros
    que as hienas e palancas
    que os jacarés e bagres
    pudessem entender
    para que se o vento a perdesse no caminho
    os bichos e plantas
    compadecidos de nosso pungente sofrer
    de canto em canto
    de lamento em lamento
    de farfalhar em farfalhar
    te levasse puras e quentes
    as palavras ardentes
    as palavras magoadas da minha carta
    que eu queria escrever-te amor...

    Eu queria escrever-te uma carta...
    Mas ah meu amor, eu não sei compreender
    por que é, por que é, por que é, meu bem
    que tu não sabes ler
    e eu - Oh! Desespero - não sei escrever também!

*Contratados era a forma como os portugueses tratavam os africanos que trabalhavam em suas terras.

O porquê desse blog

Lendo algumas obras da Literatura Africana de expressão portuguesa e estudando o contexto histórico na qual estas se desenvolveram, percebi mais claramente o quão enriquecedora e revolucionária a Literatura pode ser.
Nesse continente, explorado por décadas, foi através de movimentos literários que se desenvolveu um movimento "libertador". Foi a partir do movimento da Negritude que surgiu o Movimento pela libertação nacional...
Este é só um dos exemplos. Aqui no Brasil, durante o período da escravidão, tivemos poetas românticos abolicionistas e republicanos. Em todo canto onde há arte, seja ela literária ou não, essa arte é motivada por alguma coisa, não há possibilidade de dissociar o contexto histórico das criações literárias, a Arte Sempre Serve à Alguém...
É nesse sentido que Trotsky e André Breton escrevem_ Por uma Arte Revolucionária Independente, defendendo que a arte tem um importante papel na revolução e um espaço também importante em uma sociedade SOCIALISTA...
A arte não serve apenas para entreter, é isso que a burguesia quer que pensamos. Em toda e qualquer obra, seja ela revolucionária ou reacionária, ela trás um retrato social, trás uma ideologia social que, como uma mensagem subliminar, internalizamos sem nos dar conta.

O que queremos:

a independência da arte - para a revolução

a revolução - para a liberação definitiva da arte. (Leon Trotsky e André Breton in Por Uma Arte Revolucionária Independente)

Copa América no Brasil: para além do futebol, um conflito econômico, político e sanitário.¹

Meme sobre a realização da Copa América no Brasil Depois das desistências de Colômbia e Argentina em sediar a Copa América, a Conmebol opta ...